Stella Maris Bortoni-Ricardo

Por Artarxerxes Modesto

Professora titular de lingüística da Universidade de Brasília e Professora adjunta da Faculdade de Educação da mesma universidade. Mestra em lingüística pela Universidade de Brasília. Doutora em lingüística pela Universidade de Lancaster. Realizou seu pós-doutorado na Universidade da Pennsylvania nas áreas de Sociolingüística e Etnografia de sala de aula. Presidente da ANPOLL no período de 1992 a 1994. Vice-presidente e presidente em exercício da ABRALIN no período de 2003 a 2005. Possui publicações no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra , na Alemanha, na Bélgica, na Holanda e no Japão, nas áreas de Sociolingüística teórica e aplicada à Educação. Atualmente dedica-se em especial à pesquisa e docência na área de letramento e formação de professores, sempre enfatizando a contribuição da Sociolingüística à educação em língua materna ( português) no Brasil. Seus dois livros mais recentes, publicados pela Parábola - Educação em língua materna ( 2004) e Nós cheguemu na escola , e agora - Sociolingüística & Educação (2005) seguem essa linha.


LETRA MAGNA: Vamos começar por um questionamento genérico: o que caracteriza uma gramática?

“Gramática” é um termo do léxico do português e de muitas outras línguas. Tanto no português quanto nas línguas européias, de modo geral, a palavra deriva-se do latim, ‘grammatica, cæ’ , que , por sua vez, originou-se em um étimo grego. Entre os gregos e os romanos, gramática significava ciência gramatical: conjunto de prescrições e regras que determinam o uso considerado correto da língua escrita e falada. (Dicionário Houaiss ). Mas o significado de gramática evoluiu, juntamente com a própria ciência lingüística, e tem variado no âmbito das diversas correntes teóricas dessa ciência. A partir do início do século XX, a Lingüística Estruturalista passou a dar ênfase à gramática descritiva das línguas e das variedades de cada língua, relativizando o papel da gramática normativa, considerada como uma gramática descritiva de uma das variedades da língua, a saber, a variedade de prestígio, empregada na língua escrita e no desempenho de determinadas funções comunicativas.

LETRA MAGNA: Atualmente sabemos que existem diversos tipos de gramáticas de uma língua: reflexiva, de usos, normativa, teórica... Qual o papel de cada uma delas no cenário atual dos estudos lingüísticos?

As diferentes tendências no estudo da linguagem têm qualificado o termo “gramática” conforme os pressupostos teóricos, que lhes são subjacentes. Uma gramática “reflexiva” está de acordo com a definição de competência na teoria chomskiana , em que os dados para a análise são gerados pela introspecção do analista. O adjetivo “reflexiva” também é usado na lingüística aplicada ao ensino-aprendizagem de línguas, que enfatiza a reflexão de professores e aprendizes sobre a estrutura e os usos da língua que é objeto de sua aprendizagem. A gramática “de usos” é praticada principalmente pelos adeptos de correntes funcionalistas da lingüística, para as quais há uma relação dialética e indissociável entre forma e função no estudo da língua. A gramática “normativa” preserva o sentido original do termo na cultura greco-romana. Na idade moderna a produção de gramáticas normativas, bem como de dicionários e guias ortográficos, ocorreu com os primeiros empreendimentos de política lingüística nos países em formação, empenhados na padronização de uma língua nacional e supra-regional. De acordo com o Círculo Lingüístico de Praga, a língua padronizada nas gramáticas normativas cumpre diversas funções relevantes na constituição de uma nação, tais como a função unificadora, a função separatista e a função de quadro de referência. Observe-se também que a padronização da língua é uma etapa importante na construção do sistema burocrático de governo e corre paralela ao desenvolvimento de um acervo de letramento (inclusive a tradição literária) na respectiva nação.

LETRA MAGNA: A gramática tradicional normativa foi (e ainda é) vítima de ataques por parte de diversos lingüistas no que diz respeito às suas incoerências teóricas. A senhora considera pertinente o posicionamento desses lingüistas?

No Brasil herdamos uma tendência a valorizar em demasia a chamada gramática normativa, que tem sido objeto até de legislação federal, como a Lei nº 5765 de 18 de dezembro de 1971, que aprovou alterações na ortografia da língua e a Portaria nº 36 de 28 de janeiro de 1959, do MEC, que propôs a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Essa NGB, desde então, ganhou status de conteúdo programático em todos os níveis de ensino. Ensinar português passou a ser sinônimo de ensinar gramática, em detrimento de um trabalho pedagógico que favoreça a competência comunicativa dos alunos, habilitando-os a desempenhar, com eficiência e segurança, qualquer tarefa comunicativa, na língua oral ou escrita, que se lhes apresente na sua vida social e especialmente profissional. Quando os lingüistas criticam a gramática normativa estão considerando dois fatos: o primeiro é a séria distorção na nossa cultura escolar, que confunde o ensino da língua com a memorização de terminologia gramatical. O segundo é a ignorância das normas prescritivas em relação ao processo de evolução natural da língua e aos estudos descritivos, que se baseiam em metodologias mais atualizadas.

LETRA MAGNA: Os falantes comuns (aqueles que não são ligados à lingüística) ainda continuam apegados às regras muitas vezes antigas e engessadas contidas nessas gramáticas. Muitas vezes, sequer aceitam as explicações dos lingüistas de que há diversas gramáticas. O que está acontecendo? De quem é a falha (se é que ela existe)?


Os falantes comuns, que não estão familiarizados com a literatura lingüística especializada, vêem-se muitas vezes diante de polêmicas entre lingüistas modernos e gramáticos conservadores em relação a certos usos da língua. A lingüística moderna demonstra cientificamente, por exemplo, que um determinado traço lingüístico considerado “erro” é descendente legítimo de usos correntes em estágios anteriores da história da língua, ou mostra que algumas exigências da gramática normativa não têm fundamento lógico. Os usuários da língua, no entanto, lêem em gramáticas e nos muitos manuais publicados pelos órgãos de imprensa que aquele traço deve ser evitado. É o caso, por exemplo, de certas regências verbais ( O verbo implicar deve ser usado como transitivo direto ou indireto? O verbo assistir no sentido de presenciar tem de receber complemento indireto? Etc.). Algumas gramáticas normativas mais modernas já vêm incorporando informações fornecidas por estudos lingüísticos descritivos, mas de modo geral o usuário prefere “se garantir” aderindo à norma prescritivista quando tem de fazer concursos, prestar vestibular, redigir um oficio no seu local de trabalho etc. (a propósito, usa-se ou não se usa vírgula antes de etc.?). Seria desejável que as gramáticas normativas escolares contemplassem o conceito de adequação bem como informações sobre variação lingüística. Assim poderiam orientar o usuário da língua a fazer a opção certa entre a variante mais tradicional e a mais moderna de uma regra lingüística em processo de mudança, de acordo com a situação de fala ou de escrita, com o seu papel social no evento e, principalmente, com seus objetivos comunicativos.

LETRA MAGNA: A senhora acredita que seja necessário uma gramática de referência (do tipo teórica ou normativa) para que uma língua preserve sua cultura ?

Na cultura letrada, presente em praticamente todas as comunidades de fala contemporâneas, a descrição da estrutura e dos usos lingüísticos é muito importante como um quadro referencial que pode ajudar os usuários na sua produção lingüística oral ou escrita. Essa descrição pode ser muito útil também na formação de professores, que precisam desenvolver sua capacidade de refletir sobre a linguagem que eles próprios usam nas diversas situações comunicativas e sobre a linguagem de seus alunos. Veja-se, por exemplo, o processo de alfabetização, que precisa ser informado por noções de fonologia e de gramática em geral.

LETRA MAGNA: É possível falar em uma gramática exclusiva para o Português Brasileiro?

Desde os escritores românticos e principalmente a partir da Semana de Arte Moderna em 1922,a literatura brasileira tem adotado modos de escrever que diferem dos modelos lusitanos e procuram aproximar-se da língua corrente no Brasil. Alguns estudiosos já publicaram obras alentadas sobre essas características do português escrito e falado no Brasil, comparando-as às características do português europeu. Algumas gramáticas normativas também já cuidam de mostrar diferenças no uso da língua no Brasil e em Portugal. No entanto a própria ciência lingüística já demonstrou que não há porque se falar de uma língua portuguesa e uma língua brasileira, pois a língua que a maioria dos brasileiros usam é a língua portuguesa com certos traços no léxico, na fonologia, na gramática e na ortografia que lhe são peculiares. Precisamos tão-somente que a literatura especializada, especialmente as gramáticas normativas, traga informações sobre as diferenças entre o português usado no Brasil e em outros países lusófonos.

LETRA MAGNA: Qual a postura teórica mais adequada para tratar dos estudos em gramática do português brasileiro?

As diversas correntes teóricas da lingüística têm contribuído para a descrição do português. Em se tratando do ensino escolar da língua, o importante é que não se privilegie a nomenclatura gramatical, que será usada apenas como um recurso no desenvolvimento da consciência reflexiva sobre a língua, e que a escola se preocupe em tornar cada aluno um falante competente, que se desempenhe com segurança em qualquer prática social, oral ou escrita, de que vier a participar, atendendo às expectativas de seus interlocutores e às normas consuetudinárias sobre o uso adequado da língua vigentes na sociedade brasileira.

LETRA MAGNA: A senhora acredita que os gêneros digitais (blogs, fotologs, orkut, messengers, etc...) trarão alguma conseqüência para a sintaxe da língua portuguesa?

Os gêneros digitais, mais ainda do que os não-digitais, sofrem grande influência de línguas de comunicação internacional, especialmente do inglês. No âmbito do léxico esses empréstimos se consolidam ou não na nossa língua dependendo da necessidade de suprir ou não lacunas lexicais. No âmbito da gramática (“o livro que eu vou falar sobre”, por exemplo) essas inovações devem ser objeto da reflexão dos lingüistas e devem chegar ao conhecimento da escola para que o professor saiba em que gêneros e em que situações poderão ser usadas ou deverão ser evitadas. Quanto à linguagem codificada que principalmente os jovens usam nos “chats” ou similares, é preciso que a escola assuma a tarefa de mostrar às crianças e jovens que aquele código só é adequado para a comunicação virtual. É como a língua do “P”, que as crianças dominam, mas que só empregam com funções lúdicas.

LETRA MAGNA: Como a senhora vê a formação dos professores das séries iniciais e mesmo dos professores de Letras? Eles têm formação gramatical adequada?

Os professores de séries iniciais formados nos cursos de Pedagogia ou de Normal Superior recebem muito pouca informação sobre a estrutura e os usos da língua, o que dificulta a sua reflexão lingüística e, conseqüentemente, impede um trabalho pedagógico mais eficiente. Constatação disso temos nos resultados do SAEB, do PISA, etc. Quando assumimos uma posição crítica em relação à ênfase na nomenclatura gramatical, não podemos jogar fora o bebê junto com a água do banho, isto é, não podemos imaginar que se possa desenvolver uma produtiva reflexão sobre a estrutura e os usos da língua sem o apoio de um referencial descritivo básico. Finalmente quero chamar atenção para distorções que se instalam e se perpetuam na cultura escolar. Recentemente, elaborando um material didático para a formação de professores de séries iniciais, no âmbito de um convênio entre UnB e MEC, incorporamos algumas informações sobre a variação fonológica e gramatical no português contemporâneo. Nosso objetivo era prover o professor de informações teóricas de sociolingüística que lhe permitam identificar certas características na produção oral e escrita de seus alunos e lidar com elas sem preconceito, de forma eficiente e produtiva. No entanto, uma pessoa encarregada da avaliação do material concluiu que a menção a regras variáveis no trabalho pedagógico é por si só um estímulo ao preconceito lingüístico. Para essa pessoa, a inclusão de informações sociolingüísticas nos programas de Língua Portuguesa não representa um avanço; pelo contrário, representa um perigo. Estamos vendo então que muitos leitores de estudos contemporâneos sobre o português do Brasil (apesar de bem intencionados) acabam por fazer leituras equivocadas, que podem trazer prejuízos à educação brasileira, já tão carente de padrões de boa qualidade. Mas isso é assunto para outra entrevista.

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