Sírio Possenti


 

Doutor em lingüística. Professor do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
Autor da obra “Por que (não) ensinar gramática na escola” (Ed. Mercado de Letras, 1996)

 

Por Artarxerxes Modesto


 

 

LETRA MAGNA – Quais as contribuições da lingüística para o ensino de língua portuguesa?

 

SÍRIO POSSENTI - A pergunta é ampla e genérica, difícil de responder. Vou tentar uma resposta que recubra amplos domínios de possível influência. Diria, brevemente, que as influências principais da lingüística derivam de posições que aparentemente são só teóricas: a língua é um sistema (daí deriva, por exemplo, que os “erros” são organizados); não se aprende por etapas – da frase curta à longa; a língua falada é uma língua – ou seja, a oralidade não é “imperfeita”. Versões confiáveis da lingüística nos ensinam que falar e, eventualmente, escrever de maneira diferente não é igual a errar; que não se aprende uma língua estudando regras, mas convivendo (interagindo lingüisticamente, discursivamente) em uma “comunidade”, que falamos por textos/discursos (ou por gêneros, como ensinou Bakhtin) e não por palavras ou frases. A história das línguas nos ensinam que os erros de hoje são a língua do futuro. Por isso, as avaliações que se fazem usualmente das falas populares são bastante precárias, feitas a partir de um manual concebido como se fosse de etiqueta (as gramáticas do certo e do errado).   

 

LETRA MAGNA -Qual a posição do professor de língua portuguesa diante do ensino de gramática?

 

SÍRIO POSSENTI - Qualquer que seja a posição do professor em relação ao ensino de gramática (contra ou a favor), dois aspectos deveriam ser considerados a sério: a) ensinar gramática não é a mesma coisa que ensinar uma língua – ler e escrever bem são tipos de saberes que não exigem capacidade de análise explícita no domínio gramatical, e saber gramática não confere a ninguém a capacidade de ler e de escrever bem; b) se a escola decidir ensinar uma gramática, por que teria que ensinar uma ruim, cheia de contradições e de lacunas? 

 

LETRA MAGNA - Há um clamor atualmente pela volta do ensino tradicional de gramática normativa nas escolas, através de métodos “classificatórios”, argumentando que os alunos de hoje não sabem mais gramática e tampouco escrita. Sabemos que se trata apenas de um tipo de gramática (normativa), mas esta também não deixa de ser necessária para o processo de construção do saber do aluno sobre a sua língua e a sua linguagem.  Qual a sua posição diante desse fato?

 

SÍRIO POSSENTI - Não conheço esse clamor. Além disso, a pergunta, curiosamente, já inclui respostas, que não sei bem de onde vêm (esta também não deixa de ser necessária...). Talvez eu discorde delas, aliás. Também não sei se compreendo o que seriam métodos classificatórios de ensino de gramática. Até porque as estantes das livrarias estão cheias de métodos bem humorados de ensino...

Mas há afirmações na pergunta com as quais tendo a concordar: os alunos (alguns, ou muitos, teríamos que fazer uma pesquisa) não sabem mais gramática nem escrita. Eu diria mais: alunos nunca souberam gramática (como regra, ou seja, em sua maioria). E acrescentaria que muitos alunos, e também muitos professores, escrevem precariamente. Aliás, acrescentaria mais: que muitos deles não escrevem porque ocupam o pouco tempo que têm na escola para, pretensamente, estudar gramática, isto é, para fazer exercícios gramaticais que têm pouco sentido. Não podemos esquecer textos de Rubem Braga (e de outras escritores) que tiveram o ensino como tema, especialmente aquela sobre “feminino de cupim e nascido no Cairo”. Vistas de fora, e a sério, tais aulas parecem coisas de loucos. Na verdade, são bem piores. Falas de loucos, afinal, têm sentido... 

 

LETRA MAGNA - Há lugar para o ensino das regras normativas tradicionais na escola de hoje? Qual a postura que o professor deve assumir no momento de tratar o assunto? Estamos caminhando para uma “aposentadoria” eminente dessas regras tradicionais?

 

SÍRIO POSSENTI - Certamente que há lugar para o ensino de regras normativas. Por exemplo, diante de um caso de escrita “errada”, a atitude óbvia é “corrigir”. Se não, vai-se à escola para quê? Pela merenda? A questão toda é como se corrige – na verdade, também há problemas sobre o que corrigir...  Se alguém escrevesse (ou dissesse) “se eu manter”, haverá que corrija substituindo a forma “manter” por “mantiver”, simplesmente. E haverá que papagueie “o futuro do subjuntivo de forma a partir do pretérito perfeito; tome a terceira pessoa do plural, retire a desinência e você terá o futuro do subjuntivo; assim: mantiveram > mantiver”. Funciona? Duvido.

A escola se ocupa também de verdadeiras bobagens, como discutir se se deve dizer “a ou em domicílio”, “TV a ou em cores”. Ela não consegue absorver nem a variação nem a mudança (exceto nas pronúncias regionais). Por que não se pode escrever “namorar com” e “sentar na mesa” ou “O Ronaldinho, ele é um gato”? Por que?

 

LETRA MAGNA - O senhor é a favor dos manuais de gramática como referência para o ensino de língua no Ensino Fundamental e Médio?

 

SÍRIO POSSENTI - Sou a favor de que na escola haja à disposição dos alunos e dos professores várias gramáticas e também outros textos (dicionários diversos, ensaios numerosos sobre questões de língua, todas as boas controvérsias etc). Por exemplo, por que a escola não lê o Said Ali que argumenta que não há “se apassivador” em português? A mim ele convenceu... Numa escola ideal que se dedicasse também à discussão de questões gramaticais, seria bem interessante que os estudantes pudessem confrontar várias versões e decidir por aquela que parece mais bem sustentada (o mesmo deveria valer para história, geografia etc. e deveria haver boas histórias da ciência, para que ficasse claro que a teoria da gravitação é bem recente etc.). Claro que, em conseqüência, não poderia mais haver questões de gramática em testes de múltipla escolha elaborados por um professor (ou pior, encomendados de uma empresa dedicada ao ramo) com base em uma só gramática. A própria Nomenclatura Gramatical Brasileira é uma grande bobagem. Imagine-se uma coisa assim em física ou em botânica. Aliás, muitos defensores de ensino de gramática nunca viram uma. Só conhecem os manuais didáticos e as apostilas.  

 

LETRA MAGNA – O senhor é a favor de uma reestruturação radical da gramática normativa do português brasileiro, de forma a incorporar novas tendências lingüísticas da oralidade?

 

SÍRIO POSSENTI - Na verdade, não estou entendendo muito bem a razão pela qual só há perguntas sobre gramática nesta entrevista. Juro que pensei que era sobre lingüística...

Mas vou tentar uma resposta: o MEC desqualifica manuais didáticos que contenham erros (e preconceitos). Por exemplo, se um livro de biologia definir célula erradamente, estará fora da lista de compras.  Pergunto por que o mesmo não pode acontecer nas gramáticas. Todas elas, por exemplo, definem mal o conceito de oração principal e de subordinada; quase todas erram na definição de sujeito. O que fazer? Por que os gramáticos (ou autores de manuais) não estudam?

 

LETRA MAGNA – Qual a diferença entre “ensinar” e “aprender” no que diz respeito à questão da língua?

 

SÍRIO POSSENTI - Talvez a grande contribuição da lingüística seja, afinal, dizer que não se ensina língua. Que uma língua se aprende – ou não. Na verdade, ensinar tem sido compreendido como dar lições e fazer repetir. Ora, esse método, aparentemente, funciona para treinar pombos correios; eventualmente, goleiros. Mas não ensina ninguém a falar. Uma coisa é clara: quer aprender uma língua? Fale, escute, escreve, leia – se possível, no meio de nativos. Mesmo no que se refere à língua materna, a prática que funciona é a mesma: quer aprender a escrever? Escreva várias horas por dia durante toda sua vida. Mas as pessoas querem dicas para obter o bom resultado sem trabalho e em poucos dias. E o pior é que há montanhas de livros que dizem que têm uma solução prática, rápida e bem humorada.

 

LETRA MAGNA – Como deve ser tratado “o erro” gramatical em uma produção textual?

 

SÍRIO POSSENTI - O “erro” deve ser tratado, a meu ver, como um caso de revisão. Quem manda um livro para uma editora não tem seu texto revisto por profissionais? Pois é assim, eu acho, que o erro – e mesmo o acerto, já que há alternativas – deve ser tratado na escola. Ou seja: o professor – ou colegas, ou mesmo o próprio autor – revisa seu texto, oferece sugestões de mudança. A regra, se houver uma, seria: tratar a redação como um texto e o aluno como um autor. Durante toda a sua vida escolar.

 

LETRA MAGNA – E os erros ortográficos mais especificamente? Devem ser corrigidos? Qual o procedimento didático mais eficaz nesse caso?

                

SÍRIO POSSENTI - É óbvio que os erros ortográficos devem ser corrigidos. Afinal, a ortografia é definida em lei (errar poderia até dar cadeia...). Mas há duas questões importantes a serem consideradas, antes de falar em correção: a) os erros devem ser entendidos, isto é, o “corretor” deve ser capaz de descobrir as razões pelas quais alguém escreve “táquissi” por “táxi”, “rumoal équissa” por “rumo ao hexa”, “tapué” por “tapeware” (nem falo de casos mais óbvios, como “borraxaria”). Se não for capaz de descobrir, por debaixo desses erros legais, ricos processos psicolingüísticos, seria melhor fazer outra coisa na vida. Isso não se refere só a professores, claro. Refere-se a todos os que se divertem com tais erros, porque eles revelam, de fato, maior ignorância até mesmo do que os que erram; b) corrigir não pode ser sinônimo de humilhar; deve ser uma ocasião para estudar, para compreender o estágio do aluno e da própria língua.

 

LETRA MAGNA  – O senhor considera que o professor brasileiro de língua portuguesa está preparado para uma tomada de posição mais “científica” no Ensino Fundamental e Médio?

 

SÍRIO POSSENTI - Há professores bem preparados. Conheço trabalhos ótimos, incríveis. Mas é claro que há professores despreparados (e também secretários de educação, jornalistas e outros opinadores).

 

LETRA MAGNA  – E os cursos de formação de professores (licenciaturas em Letras)? Atendem a essa demanda de profissionais mais centrados nas competências e habilidades lingüísticas do que na questão gramatical tradicional?

 

SÍRIO POSSENTI - A maior parte dos cursos de letras não está preparada, a meu ver, para formar professores suficientemente capazes para encarar as necessidades da escola brasileira (o que suporia capazes de continuar a estudar). Muitos alunos de letras não escrevem. E muitos de seus professores também não. Muitas faculdades são verdadeiros colegiões, repetem o currículo não aprendido no segundo grau – sem nenhum sucesso, diga-se.

 

Mas esse quadro não é exclusivo dos cursos de letras. Sabe-se que a maioria dos bacharéis em direito não consegue aprovação nos exames da Ordem e que aumentam ano a ano as queixas contra erros médicos.

 

Para concluir, gostaria de fazer uma observação sobre a que parece ser a agenda “social” sobre ensino de língua: a sensação que se tem é que se pensa que haveria uma solução óbvia, ensinar gramática. Ora, o ensino tem muitos aspectos. Consta que a escola forma leitores precários. A solução é ensinar gramática normativa? É como se, para resolver os problemas de subnutrição, os especialistas, ou os governos, sugerissem que os pobres devem ser submetidos ao ensino de regras de etiqueta.