Mário A. Perini

(Universidade Federal de Minas Gerais)

O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Por Artarxerxes Modesto


LETRA MAGNA -  Qual é o seu posicionamento em relação ao novo acordo ortográfico? O senhor pensa, como alguns jornalistas, que a reforma tem cunho muito mais político que linguístico?

 

A reforma tem cunho exclusivamente político. Não sei que vantagem trouxe, nessa área, mas nas áreas educacional e linguística não trouxe vantagem nenhuma.

É difícil interpretar a motivação dos outros, mas eu arriscaria dizer que a reforma foi realizada por razões como as seguintes: (a) a vontade de “mostrar serviço” – dada a situação catastrófica do ensino no país, as autoridades procuram dar a impressão de que estão preocupadas e tomando decisões a respeito. Aí, escolhem uma reforma que sai barata (para eles – para a escola e para a indústria editorial sai bem cara), não tem efeito nenhum na qualidade do ensino, mas tem repercussão na mídia. E (b) passar a imagem de uma comunidade internacional que dá atenção à sua unidade linguística.

Nada disso tem a ver com as reformas que a educação reclama; e nada disso tem a menor base linguística. Os linguistas não foram consultados, e a reforma saiu o que saiu. Seria como fazer uma reforma na UTI de um hospital sem consultar os médicos.

 

 

LETRA MAGNA -  Ouvimos vários professores e filólogos dizendo que a reforma foi tímida. Poderia ter sido mais radical, retirando, por exemplo os acentos diferenciais que ainda restaram da reforma de 1972 (o “pára” e o “pôr”), ou resolvendo de vez os inúmeros problemas do hífen. O que o senhor acha?

 

A reforma foi tímida. Mas para que não fosse seria necessário fazer mudanças que pouca gente aceitaria: por exemplo, unificar a grafia de certos fonemas, e passar a escrever jente, sidade, caza e xuva. Aí sim, estaríamos facilitando a ortografia. Mas, embora essa seja uma solução linguisticamente defensável, não passaria pela barreira de inércia que bloqueia as reformas na área de Língua Portuguesa – barreira representada pela tradição gramatical, pelo pouco preparo dos professores e pela resistência da população em geral, que imagina que mudar a ortografia é desfigurar a língua.

Já que a situação é essa, minha sugestão seria de deixar como estava. E, se possível, assumir uma atitude de maior tolerância quanto aos chamados “erros” de ortografia. Na minha opinião, a ortografia não tem nem de longe a importância que em geral se dá a ela. Escrever bem não é colocar os acentos e hífens no lugar.

 

 

LETRA MAGNA -   Qual a importância desse acordo para os países lusófonos? Qual país sentirá mais as mudanças?

 

Os países lusófonos, se levarem a sério essa reforma, vão ter despesas com a substituição de toda a literatura escolar disponível, sem nenhuma vantagem perceptível. Quanto mais pobre o país, mais vai sentir o efeito dessa substituição. Um país como Guiné-Bissau, por exemplo, tem necessidades muito maiores do que destinar seus poucos recursos a reimprimir os livros escolares para retirar tremas e acentos.

Os motivos apresentados para a reforma não são válidos. Falou-se em reforçar a unidade dos povos lusófonos – mas o que nos separa não são detalhes da ortografia. São profundas diferenças econômicas, culturais e históricas; e diferenças linguísticas que nada têm a ver com a ortografia: vocabulário, sintaxe, morfologia e pronúncia. Será que alguém realmente acha que se os moçambicanos e os brasileiros passarem a escrever da mesma maneira a palavra fato eles vão ficar, ou se sentir, mais próximos? Ou vão falar ou escrever de forma mais parecida?

Falou-se também em abrir o mercado português para os livros brasileiros. Mas o que abre mercados não é a identidade de ortografia. Os livros estrangeiros mais vendidos no Brasil são, de longe, os ingleses e americanos – e a diferença é não só de ortografia, mas de língua.

Falou-se ainda em simplificar a grafia. O objetivo disso, creio, eu, seria facilitar a aprendizagem, de modo que os usuários do português escrevessem com menos erros. Esse argumento é falso por duas razões: primeiro, porque as deficiências educacionais não têm nada a ver com a dificuldade da matéria: têm a ver com a qualidade do sistema educacional. E, depois, porque do ponto de vista da simplificação a reforma é um verdadeiro desastre, dando inclusive passos para trás, como a supressão do acento de idéia, que agora se escreve como feia, embora a pronúncia seja diferente.

 

 

LETRA MAGNA -   O acordo trará algum benefício para o Brasil?

 

Essa é fácil: não.

 

 

LETRA MAGNA -   O Decreto no 6.583 teve seu início de vigência em 1o de janeiro de 2009 e prevê um período de transição até 31 de dezembeo de 2012. O senhor considera esse tempo suficiente?

 

É suficiente. Para aprender toda a reforma não é preciso ler nenhum livro. Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná, resumiu tudo em uma página, que está disponível no site www.cbncuritiba.com.br .

 

 

LETRA MAGNA -  Houve realmente uma simplificação na grafia das palavras?

 

Não. Em alguns casos houve dificultação, como no caso da supressão do trema. Essa modificação acarretou um distanciamento entre a fala e a escrita; agora escrevemos aguentar como aguerrido, desprezando o fato de que na primeira palavra o u se pronuncia, mas na segunda não. Em outros casos havia uma complicação a resolver, mas a reforma não a tocou – é o caso do hífen, que era difícil e continua difícil.

 

 

LETRA MAGNA -   Houve alguma base de reflexão teórica ou filológica para a organização das mudanças?

 

Não. Gostaria de deixar isso bem claro: a reforma não reflete conhecimento elementar de linguística, e parece trabalho de amadores. Isso é claro para qualquer profissional que tenha conhecimento de fonologia. Para falar bem francamente, instituições como a Academia Brasileira de Letras não são competentes para tratar de questões linguísticas, pois são formadas de leigos no assunto. Na Academia temos um linguista respeitável, que é o professor Bechara, mas é o único. Acho que um entre 40 não basta para qualificar um trabalho técnico. Os especialistas (e há muitos no Brasil) deveriam ter sido ouvidos.

 

 

LETRA MAGNA -   Qual é, em sua opinião, a mudança ortográfica de maior importância?

 

As mais incômodas são, a meu ver, a supressão do trema e a do acento em heróico e idéia; ambas as modificações aumentam a distância entre a pronúncia e a grafia.

 

 

LETRA MAGNA -   Existe algum ponto na mudança que o senhor considera inadequado ou irrelevante?

 

Só os seguintes: a reforma foi inútil, mal concebida e mal justificada.

 

 

LETRA MAGNA -   Qual o impacto do acordo ortográfico no ensino de Língua Portuguesa no Brasil?

 

O impacto é negativo: primeiro, vai reforçar o complexo de inferioridade linguístico do brasileiro, que vai continuar sentindo que “não sabe” a sua língua. Depois, já está causando despesas totalmente desnecessárias para os editores de livros didáticos.

 

 

LETRA MAGNA -   Acha que ainda virão muitas outras reformas para cobrir os “buracos” deixados por esta? Quando?

 

Sim, virão. Eu calculo que haverá uma reforma mais ou menos de 30 em 30 anos – de 1943 a 1972 foram 29 anos; de 1972 a 2009, 37 anos. Ou seja, lá pelos anos 2030 vai começar a pressão para uma nova (e provavelmente inócua) mudança ortográfica.

Mas, a julgar pela experiência passada, as novas reformas não vão cobrir “buracos”; vão abrir mais uns, e vão deixar outros como estão.

 

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