Leda Verdiani Tfonuni


 

Lingüista e Analista. Master of Arts pela University of Califórnia. Doutora pelo IEL/UNICAMP. Livre-Docente e Titular pela USP.
Professora Titular da Universidade de São Paulo, USP-Ribeirão Preto. Autora do livro “Letramento e Alfabetização”, pela editora Cortez.

 

Por Artarxerxes Modesto


 

LETRA MAGNA- Qual a importância e o lugar da lingüística na prática docente do professor educador em língua materna atualmente?

 

TFOUNI - Tenho uma posição, que talvez pareça radical para alguns, que é a seguinte: sem saber lingüística, não é possível trabalhar com o ensino de língua materna, seja na alfabetização, seja nos outros níveis, até o ensino superior. Penso, ainda, que nenhuma disciplina “auxiliar” (como as psicologias de educação e de ensino-aprendizagem, ou as pedagógicas) pode dar conta da tarefa de trabalhar o ensino da língua materna se não tiver como base o conhecimento das teorias sobre a linguagem. A lingüística não é afetada por nada que lhe é externo, já dizia Saussure. Daí, não adianta conhecer métodos de alfabetização sem saber a diferença entre um fonema e um grafema. Já ouvi várias vezes, de professoras alfabetizadoras, explicações onde se detecta uma confusão entre o som da língua e a escrita desse som. Essas confusões poderiam ser contornadas se fosse oferecida a disciplina lingüística nos cursos para professores.

 

LETRA MAGNA - Qual a sua posição diante do ensino de gramática no Ensino Fundamental? Qual a orientação ou postura teórica mais adequada para tratar o tema nesta fase?

 

TFOUNI  - Não sou adepta do espontaneismo no qual algumas tendências voltadas para o ensino de língua materna se sustentam, na suposição de que os falantes possuem um conhecimento tácito das regras da gramática, e irão sistematizá-lo por si próprios. A outra faceta dessa mesma postura é o construcionismo, que retira do professor o papel que lhe cabe, de sistemazidor e intermediador do processo de aprendizagem. Creio que a função da escola é sistematizar o conhecimento já adquirido, e também abrir caminhos para novas descobertas, cientificamente embasadas. Por outro lado, penso que nenhum conhecimento deve ser ocultado, ou negado aos estudantes. Deste modo, as regras de funcionamento da língua devem ser dadas a conhecer aos alunos, porém sem que isso vire dogma. Existe uma lógica subjacente na gramática, que é até interessante que os alunos descubram. Porém, repito, nunca essas regras de bem falar ou bem escrever devem predominar sobre o processo criativo-discursivo das produções dos alunos.

 

LETRA MAGNA - A senhora é a favor de avaliações sistemáticas envolvendo conteúdos conceituais da área de Língua Portuguesa?

 

TFOUNI  - Sou a favor de que haja avaliações sistemáticas, pois é preciso, para que o sistema funcione adequadamente, que haja normas a serem cumpridas. Nem o professor, nem o aluno, podem ficar a céu aberto, sem um ponto de apoio que guie as práticas docente/discente. E as avaliações são importantes para dar esse respaldo. Porém, nunca a avaliação deve virar um fim em si mesma, muito menos uma forma de intimidação ou troca de favores. Também a avaliação não deve restringir-se a solicitar uma repetição parafrástica do conteúdo. As provas, ou os trabalhos de avaliação precisam colocar os alunos em uma posição de ter que dar sua contribuição pessoal para as questões colocadas. Estas devem ser polissêmicas, ou seja: devem propiciar uma abertura para que novos sentidos, trazidos pelos próprios alunos, possam aflorar.

 

LETRA MAGNA - Com relação à redação, como deve ser o tratamento pedagógico dado aos chamados “erros” gramaticais? O professor pode corrigi-los? De que forma?

 

TFOUNI - A melhor forma de “corrigir” “erros” deve ser retroativamente. Isto significa que o professor vai ter uma memória (no sentido discursivo) das escritas inadequadas de seus alunos, e, quando ocorrer uma forma mais aceita, seja em uma outra redação, seja em algum texto que estiver sendo trabalhado, este professor irá, retroativamente, fazer a classe atentar para aquela ocorrência, e substituir por ela a inadequação inicial. Isto pode ser feito através de um diário, onde o professor sistematizará esses chamados “erros” por categorias: ortográficos, sintáticos, semânticos, etc. Um método muito bom para chamar a atenção sobre o “erro”, sem precisar corrigi-lo ostensivamente é pedir que outro leia a produção do aluno. As dificuldades de leitura decorrentes desses “erros” poderão assim ficar evidentes, e o próprio aluno tentará escrever mais de acordo com a norma. Deste modo, o trabalho em grupos de leitura, onde as redações e outras produções são lidas pelos pares, torna-se frutífero e eficiente.

 

LETRA MAGNA - Agora nos voltaremos a uma questão primordial para o desenvolvimento das competências e habilidades do educando: Letramento. Qual a definição? Quando se inicia e quando se concretiza?

 

TFOUNI  - Letramento é um processo sócio-histórico que ocorre em uma sociedade quando suas práticas discursivas passam a ser sustentadas pela escrita. Como as práticas letradas afetam TODOS os sujeitos usuários de uma língua, não é adequado afirmar que não-alfabetizados sejam iletrados. O que existe são GRAUS DE LETRAMENTO, que acompanham a desigual distribuição de conhecimento que há nas sociedades modernas. Assim, há sujeitos MAIS ou MENOS letrados, conforme a facilidade de acesso ao arquivo das produções escritas e da cultura letrada for maior ou menor.Historicamente, o letramento inicia-se na época em que as grandes epopéias foram produzidas, período que foi acompanhado por contato entre culturas que já possuíam um alfabeto como os fenícios, e outras, em estágio menos avançado, devido a trocas comerciais principalmente. Estes eventos propiciaram o espalhamento das práticas letradas, seja por necessidade estética (declamar a Ilíada e a Epopéia supunha um conhecimento letrado que complementasse as dificuldades impostas à memória pelos textos longos e complexos), seja por necessidade econômica (a necessidade de criar formas de registro gráficodas mercadorias que eram possuídas ou trocadas). Do ponto de vista ontogenético, o letramento começa assim que a criança entra em contato com os primeiros eventos mediados pela escrita, tais como, presenciar uma conversa onde se discute um filme, ou uma ocasião qualquer de leitura, seja dirigida à própria criança, ou não. É comum que crianças muito pequenas, ainda não-alfabetizadas, “leiam” palavras ou rótulos que são interessantes para elas, como coca-cola. São inúmeros os eventos interacionais nos quais o adulto “ensina” a criança a soletrar palavras, ou então chama a atenção para a escrita de palavras que contêm, por exemplo, a primeira letra do nome da criança, etc. Deste modo, antes de ser alfabetizada, a criança já tem um conhecimento das práticas letradas, e leva isto para a escola.

 

LETRA MAGNA - Onde entra a Alfabetização nesse contexto?

 

TFOUNI - Não é possível confundir letramento com alfabetização. Definições de letramento que reduzem este conceito à mera aquisição de habilidades de escrita e leitura estão simplificando demais a questão. Por outro lado, são preconceituosas, pois deixam fora do conceito de “letrado” aqueles que não sabem ler nem escrever. Algumas definições recentes chegam a colocar uma exigência de desempenho acima da média na leitura e na escrita para que se considere a pessoa letrada. Ouvi dias desses, em uma mesa-redonda, uma colega afirmar que “analfabeto” é um termo preconceituoso, pois teria embutido o termo “bête”, que em francês significa “besta”, “animal”. Desconhecimento do histórico da língua...Todos que conhecem um pouco de etimologia sabem que “analfabeto”, literalmente significa: “sem (asletras) alfa e beta”, que são as primeiras letras do alfabeto grego. O pior é que, apelando para essa etimologia capenga, disse a colega que prefere “iletrado” a “analfabeto”, pelo motivo exposto. Aí, sim, é que existe um preconceito, pois “iletrado”, se usado para caracterizar sujeitos que vivem em sociedades letradas, irá igualar esses sujeitos aos chamados povos primitivos, que não têm escrita, e, portanto, não atingem as funções mentais superiores, nem os usos literários e contemporâneos da escrita. Para contornar essa questão, é preciso que não se entenda letramento como sinônimo de alfabetização, e sim como um processo que determina a alfabetização. Minhas pesquisas, que realizo há mais de vinte anos, e as inúmeras publicações dela decorrentes, têm mostrado que adultos não-alfabetizados são perfeitamente capazes de construir textos com coerência e coesão, onde há um processo às vezes sofisticado de textualização, com início e fechamento. Reduzir o letramento à alfabetização leva-nos a olhar somente o que ocorre com aqueles que já passaram, ou estão, dentro dos muros da escola, e isso exclui os milhões de excluídos das práticas escritas escolares, sujeitos sem uma voz reconhecida, mas que, mesmo assim, fazem sua “escrita” circular na forma de um retorno daquilo que De Certeau denomina de “... a voz e o grito dos excluídos da economia escriturística”. Os estudos sobre o letramento devem levar em consideração essas vozes que são caladas, recalcadas e desprezadas: a do não-alfabetizado, dos loucos, do trabalhador braçal, das crianças, etc.

 

LETRA MAGNA – Existe relação entre Letramento e Cultura Escrita?

 

TFOUNI - Pode-se dizer que são sinônimos, desde que não se entenda “cultura escrita” no sentido estrito de “habilidade para ler e escrever textos complexos”. É preciso esticar o conceito de cultura para que passe a considerar todas as práticas de leitura e escrita, diretas ou indiretas. Por indiretas quero me referir às práticas que retomam textos ou atividades letradas, seja através da língua oral, seja da língua escrita. A dicotomia proposta pela teoria da grande “divisa”, ou “divisão” deve ser evitada. O interessante é que poucos consideram essa teoria como uma formação ideológica insidiosa, que “pega” os sujeitos sem que eles se dêem conta, e, mesmo se colocando contra ela, fazem um retorno àquilo que ela preconiza, quando, por exemplo, confundem letramento com excelência no desempenho do discurso escrito.

 

LETRA MAGNA - Quantos anos de estudo e que tipo de ação educacional garantem níveis satisfatórios de alfabetismo e letramento?

TFOUNI - Não existe nenhuma relação direta entre alfabetização, escolarização e escolaridade. Mostro em inúmeros trabalhos meus produções escritas de sujeitos de nível universitário que não conseguem redigir um “texto”, que não conseguem argumentar diante de uma proposta polêmica, e que se limitam, ou a uma repetição quase literal do discurso do outro, ou a uma escrita desorganizada, plena de pontos de deriva e de dispersão, esta originada da falta de amarração entre os elementos lingüísticos. Por outro lado, encontramos sujeitos não-alfabetizados que nunca foram à escola, mas que produzem textos em prosa ou em verso, muitos deles extremamente longos, os quais têm um efeito e completude. Na contramão, há sujeitos que freqüentaram a escola durante muitos anos (às vezes, até sete), sem que, apesar da persistência, tivessem sua esperança de aprender a ler e escrever preenchida: continuam analfabetos, o que aponta para um fracasso da própria escola com relação ao modo de tratar esses sujeitos dentro do espaço formal de ensino-aprendizagem. Essa afirmativa é reiterada por casos de analfabetos que foram sendo sucessivamente promovidos de série, sem terem aprendido sequer os rudimentos da escrita, como escrever o próprio nome, e que chegaram até a terceira série do ensino elementar. Assim, não é o número de anos que a pessoa freqüentou a escola, nem o grau de escolaridade que vão determinar seu grau de letramento.

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