JOSÉ LEMOS MONTEIRO
Luta, Determinação e Resistência

Paraense radicado em Fortaleza, José Lemos Monteiro é doutor em Letras pela UFRJ e tem dedicado sua vida à pesquisa e ensino da língua portuguesa, como professor titular da UNIFOR e professor Adjunto da UFC e UECE. Sua produção intelectual é bastante ampla e diversificada, somando treze livros e cerca de setenta estudos publicados em revistas especializadas. Abrange obras de ficção cientítica e literária, algumas premiadas, bem como ensaios de natureza lingüístic, estilística e educacional.

Por Artarxerxes Modesto


1 -Professor José Lemos Monteiro, conte um pouco de você, de sua vida, de sua trajetória acadêmica...

Sou paraense radicado em Fortaleza. Dedico minha vida à pesquisa e ensino da língua portuguesa, como Professor Titular da UNIFOR e Professor Adjunto (aposentado) da UFC e UECE. Já lecionei as mais diversas disciplinas, às vezes tendo mesmo que improvisar programas de assuntos totalmente desconhecidos para mim. No começo, isso acontecia porque eu não tinha realmente poder de escolha. Depois, porque percebi que era uma forma de tornar-me menos limitado e ser capaz de analisar um tema sob vários enfoques.
Aliás, essa tem sido uma de minhas características: nunca me conformei em ensinar durante anos seguidos o mesmo conteúdo. Quis sempre descobrir novas perspectivas e, talvez por isso, minha produção acadêmica se diversifica em três áreas: a literatura (a ficção e o ensaio crítico), os estudos educacionais e a pesquisa lingüística. Como ficcionista, sem contar com alguns contos esparsos em jornais e antologias, publiquei os romances A valsa de Hiroxima (1980), A serra do arco-íris (1982) e O silêncio dos sinos (1986). Como crítico, além de artigos publicados em revistas, escrevi O universo mí(s)tico de José Alcides Pinto (1979), O discurso literário de Moreira Campos (1980) e O compromisso literário de Eduardo Campos (1981). Quanto aos estudos educacionais, além de minha dissertação de Mestrado, uma série de reflexões sobre o ensino brasileiro e sobre as estratégias para o desenvolvimento da criatividade deu margem à publicação de vários pequenos ensaios, destacando-se "O ensino do português após a Lei 5.692", pelo tom polêmico da análise crítica que apresenta.
Mas foi e continua sendo no estudo da língua o campo em que tenho desenvolvido o trabalho mais intenso e, de certa forma, mais compensador. Destaco os livros Morfologia portuguesa (Campinas: Pontes), A estilística (São Paulo: Ática) e Para compreender Labov (Petrópolis: Vozes).

2 - No momento o senhor está desenvolvendo alguma pesquisa, ou engajado em alguma obra?

Sempre estou trabalhando em alguma pesquisa. No momento, além de ocupar-me em dois projetos institucionalizados na Universidade de Fortaleza, estou reformulando inteiramente o meu livro A estilística, com vistas à publicação de uma futura nova edição, revista e ampliada.

3 - Qual o momento acadêmico mais marcante em sua vida?

O momento, se não o mais marcante, o mais dramático de minha vida acadêmica ocorreu na época do governo Geisel, face às constantes pressões contra os professores que, como eu, ainda não eram portadores do título de Mestre. De repente, o concurso que fiz para Auxiliar de Ensino e o tempo de serviço prestado já nada valiam e instaurou-se um clima de verdadeira perseguição: ou o Mestrado ou a rua. E o pior: questões de ordem familiar me impediam de viajar para alguma capital onde houvesse pós-graduação em Letras, de forma que eu aparentemente não tinha outra saída, a não ser resignar-me. E já estava realmente num beco sem saída, na iminência de ser demitido, quando em Fortaleza se criou o Mestrado em Educação.
Recordo, ainda ressentido, que solicitei aos colegas do Departamento a indicação de meu nome, para que eu pudesse concorrer a uma das vagas na seleção do referido curso. Foi uma reunião tensa, em que me senti réu e vítima. Afirmavam que, se eu me negava a viajar para o sul, quando outros já o haviam feito, era porque eu queria mesmo perder o emprego. Eu tentava explicar, meus olhos se enchiam de lágrimas, porém não abrandavam os olhos secos que me fitavam. Graças a Deus, ao fim da sessão, tudo isso teve uma recompensa: para surpresa geral, um dos professores tomou a minha defesa, lamentando a falta de solidariedade dos colegas e ressaltando que a demissão seria um absurdo, principalmente porque eu sempre havia sido responsável e eficiente. Não posso deixar de registrar esse fato aqui, menos pela lembrança dos instantes de angústia do que pelo gesto de amizade do Prof. Hamílton Andrade. Valeu a pena!

4 - Sobre sua tese de doutoramento na UERJ, sobre os pronomes: o senhor acha realmente que nosso quadro pronominal está diferente; podemos dizer que está mesmo alterado?

Disso não tenho a menor dúvida: o sistema dos pronomes pessoais no português do Brasil sofreu e ainda está sofrendo profundas mudanças, seguindo um longo processo que remonta aos primórdios de nossa língua.

5- E a forma "tu"? É mesmo um "dinossauro lingüístico" como o "vós"?

O pronome tu, embora tenha sido substituído por você em diversas regiões brasileiras, continua muito vivo em diversos estados (por exemplo: Pará, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Sul). O curioso é que, mesmo nas localidades em que a forma você conseguiu praticamente tirá-lo de circulação, persiste o clítico te nos tratamentos informais.

6 - Tenho percebido que sua produção é vasta, e vai desde os estudos sociolingüísticos até a literatura. Qual a área que mais lhe dá prazer?

É evidente que a Literatura, por suas funções catártica e lúdica, me envolve muito. Infelizmente, porém, sempre tenho que deixá-la em segundo plano, em razão de meu trabalho como professor na área de Lingüística. Eu seria falso se dissesse que os estudos nessa área só me dão prazer: com freqüência, quase que por obrigação intelectual, sou levado a ler textos extremamente áridos e alguns até mal redigidos.

7 -Hoje em dia vemos centenas de dezenas de cursos de Letras serem oferecidos pelo Brasil afora, muitos deles sem o mínimo necessário para que o aluno saia com uma boa formação. Quem perde com isso? Como o senhor vê essa questão? Há salvação?

Não gosto nem de pensar nesse absurdo que está ocorrendo no Brasil. Não se trata, porém, apenas da desmoralização dos cursos de Letras: a irresponsabilidade é tamanha que até cursos de Medicina estão sendo criados sem a mínima condição, o que põe em risco a própria saúde da população brasileira, já entregue a profissionais sem nenhum preparo. Quase todo mundo perde com isso. Mas os poucos que ganham, ganham muito: o ensino no Brasil é uma das indústrias mais rentáveis.

8- Como o senhor vê o ensino nas escolas públicas brasileiras?

Já ensinei em escolas públicas, numa época em que havia alguma preocupação com a aprendizagem. Em nome da democratização ou proletarização do ensino, aumentou-se significativamente o número de vagas sem que se levasse em conta a exigência de um mínimo de qualidade. O resultado é esta tragédia. Toda a propaganda governamental vai no sentido de divulgar números, mas, em muitos casos, é como se não se ensinasse absolutamente nada: uma quantidade expressiva de alunos conclui o curso fundamental sem saber ler nem escrever. Existe coisa pior?

9 -Qual o caminho para preparar o professor para os desafios da nova sociedade?

O caminho se inicia com um ato de vontade. Se, por exemplo, o governo quisesse levar a sério a educação brasileira, começaria por aparelhar bem suas instituições e a fazer que os professores, com um salário digno, voltassem a ter estímulo. Daí é só pôr em prática a criatividade que todo brasileiro tem.

10 -Qual a sua posição a respeito dos resultados de nossos alunos no PISA?

Pelo que já comentei nas respostas anteriores, no quadro em que se encontra o ensino brasileiro não se pode esperar por melhores resultados. Quem conhece a realidade de sala de aula tem percebido que, a cada ano que passa, o nível dos alunos é mais assustador. Hoje, por incrível que pareça, grande parte de nossos estudantes universitários não conseguem entender o que mal conseguem ler.

11- O que podemos falar da Lingüística - enquanto ciência - em seu estado atual? E no Brasil? Temos uma "Lingüística Brasileira"?

A Lingüística tem tido um desenvolvimento fantástico, com repercussões em outras áreas do conhecimento humano. Apesar do radicalismo de certas correntes, pode-se afirmar que, desde o seu surgimento, as questões levantadas e as soluções propostas evidenciam que a investigação sobre a linguagem humana já avançou muito. No Brasil, o campo tem sido extremamente fértil e, se já há algum tempo tivemos um lingüista do porte de Mattoso Câmara Jr., é porque não nos encontramos numa fase tão incipiente.

12 -Quais seus planos para o futuro?

Adoto uma filosofia de não planejar ou idealizar o futuro. Tento viver o presente, o aqui-e-agora, como ele se manifesta para mim, procurando aceitar tudo o que a vida me oferece. As práticas de meditação me levaram a adotar essa atitude existencial, embora o peso dos condicionamentos culturais de vez em quando me faça pensar no dia de amanhã.

13 - O que o senhor tem a dizer sobre a Revista Letra Magna?

Iniciativas como essa nos fazem manter viva a esperança no ensino e na divulgação do que se faz em termos de estudo da linguagem. Quando conhecemos um jovem que demonstra o maior interesse pela causa da ciência, passamos a ter a certeza de que nem tudo está perdido e o caminho para uma nova mudança de perspectivas já está sendo trilhado. É só uma questão de (pouco) tempo.

14 - A Revista Letra Magna e seus leitores agradecem sua entrevista e juntos desejamos a você sucesso e muitas felicidades.

Eu é que agradeço e retribuo em dobro os votos de sucesso e felicidades.


 

Voltar