Jânia Ramos

Por Artarxerxes Modesto

Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Pesquisadora CNPq e Editora da Revista da Abralin.Professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos da UFMG

Publicações:
RAMOS, J. O Espaço da Oralidade na Sala de Aula. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
Prefácio e edição, em co-autoria com Renato Venâncio, do livro de Alexandre de Gusmão (1685) "A Arte de Criar Bem os Filhos na Idade da Puerícia". São Paulo: Martins Fontes (2004).
Artigos e Capítulos de livro sobre sintaxe e sociolingüística.



LETRA MAGNA -Vamos iniciar com uma pergunta “genérica”: o que caracteriza uma gramática ?


O termo gramática é ambíguo. Uma de suas acepções seria um certo tipo de conhecimento que todo falante de uma língua possui, e tal conhecimento lhe permite produzir e interpretar sentenças. Outra acepção de gramática seria um conjunto de regras que teria como objetivo explicitar o que é a língua culta.

LETRA MAGNA -Qual foi o percurso histórico da gramática até que ela chegasse aos nossos dias?


Os livros de história da lingüística identificam a Grécia como berço dos estudos sobre gramática. Estes, em princípio, eram parte dos estudos filosóficos e, posteriormente, foram adquirindo autonomia. Hoje constituem uma área de conhecimento, subdividida em diversas sub-áreas.

LETRA MAGNA -E a gramática “escolar”? Por que ela é tão distante da gramática “de uso” das línguas? É importante ensinar esse tipo de gramática na escola (normativa)?


Por gramática escolar entende-se um certo conjunto de informações cujo domínio deverá ter como resultado levar o estudante a falar e escrever corretamente. A seleção desse objeto de estudo pela escola não é aleatório. Trata-se apenas do cumprimento de uma tarefa maior que é a de fixação da variedade lingüística padrão de uma comunidade de fala, tarefa essa que é também realizada pela imprensa, por dicionários, etc. O Brasil, tal como outras nações, possui língua oficial e, em decorrência disso, essa língua precisa ser fixada e difundida.
O material que temos hoje disponível para atender ao propósito escolar é um certo tipo de livro que contém regras prescritivas e descritivas, formuladas a partir de uma abordagem tradicional do que seja uma gramática. Sobre esse material podemos fazer várias críticas, apontando suas limitações e suas vantagens. Não são poucos os trabalhos que apresentam análises críticas desse material. Uma dessas críticas é que seria “ distante do uso da língua”.
Aqui caberia uma pergunta: o que é ser “distante do uso”? A referência ao uso remete imediatamente a situações reais em que a linguagem está presente. Sabemos que há múltiplas situações e essas podem ser hierarquizadas com base no seu grau de formalidade. Sabemos também que, cotidianamente, o estudante participa, com sucesso, de situações informais, mas não de situações mais formais, que requerem novos conhecimentos e habilidades. E é exatamente por isso que o estudante precisa ser preparado por uma educação formal, para que possa participar de situações que são estranhas a seu cotidiano. Reconhecer que participar de todo o leque de situações e ter um desempenho lingüístico adequado a cada um é um direito do indivíduo e cabe ao sistema escolar contribuir para isso. Como fazê-lo? É essa a tarefa do ensino de língua materna.
Em outras palavras, o fato de o conteúdo da gramática escolar ser distante do uso cotidiano que o aluno faz da língua não é em si um problema. O problema reside na inabilidade da escola em tornar o conteúdo programático das aulas de português em algo que não seja nem artificial e nem desinteressante para o aluno.

LETRA MAGNA -Qual gramática devemos ensinar na escola?


Nossa prática mostra que a escola opta pelo uso de gramáticas tradicionais, normativas. Há dois tipos de informação neste conjunto de informações sobre a língua: instruções referentes ao modelo de análise (terminologia, definições e regras descritivas) e ainda uma enumeração de fatos da língua considerados representativos do bem falar ou falar “correto”, que sabemos ser aquele modo de falar que é socialmente prestigiado.
O que a escola tem por objetivo? O domínio de uma terminologia e definições sobre descrição de línguas? Ou o domínio de formas lingüísticas socialmente prestigiadas? Dependendo do objetivo, seleciona-se o modo pelo qual o material disponível deverá ser usado.
Assim como (quase) nenhum aprendiz vai ler um dicionário página por página para aprender a grafia das palavras e os significados daquelas que lhe são desconhecidas, da mesma maneira (quase) nenhum aluno vai se dispor a estudar uma gramática página por página até aprender o que ainda não sabe.
Minha resposta à sua pergunta é a seguinte. O modo pelo qual usaremos o material disponível depende do objetivo: ou para consultas pontuais ou para o domínio de técnicas de descrição lingüística. Em outras palavras, a questão não é o que usar mas, sim, como usar o material disponível.
Há uma tarefa que todos nós realizamos, que é a leitura crítica de nossos textos e sua re-escritura. Para isso usamos certos instrumentos com interesse e disposição. Tais instrumentos são os dicionários, os manuais de redação e gramáticas normativas. Por que as aulas de português não poderiam sistematizar essa prática?


LETRA MAGNA -Qual a sua posição diante das mudanças gramaticais ocorridas efetivamente na fala do brasileiro, mas que ainda não foram consolidadas pela gramática normativa ( ex: você como pronome pessoal, desuso de vós, uso de pronomes objetos em posição de sujeito, etc...) ?


Na sala de aula, estes são tópicos que podem propiciar discussões interessantes sobre a evolução das línguas, facilitando a documentação de mudanças lingüísticas. O fato de as gramáticas normativas ainda não registrarem algumas dessas inovações constitui uma evidência do recorte que elas se impõem. E é bom que o aluno perceba que as gramáticas normativas não registram 100% do que é uma língua.
Por outro lado, para os lingüistas, estes fatos constituem fonte de textos de interesse teórico.


LETRA MAGNA -Qual foi, segundo o seu ponto de vista, a maior mudança gramatical ocorrida no Português Brasileiro nos últimos anos?


Vários estudos sobre o Português Brasileiro apontam uma tendência recente para o preenchimento da posição sujeito, evitando o sujeito vazio ou nulo. Em outras palavras seria a preferência pela seqüência “Nós vamos sair” em detrimento de “ Vamos sair”, em que o sujeito “nós” seria omitido. Essa tendência trouxe consigo alterações em diversas construções aparentemente independentes. Um exemplo seria a preferência pela ordem SV com verbos do tipo “ chegar”, como em “Ele chegou cedo” em detrimento de “ Chegou ele cedo”.


LETRA MAGNA -No que diz respeito às duas grandes correntes lingüísticas difundidas no Brasil (funcionalista e gerativista), qual delas oferece o melhor aparato para a descrição língua portuguesa do Brasil?


Essa resposta pressupõe ser possível comparar resultados provenientes de referenciais teóricos distintos. Mas, como se sabe, os próprios objetos, definidos a partir de cada referencial teórico, são distintos. Isso inviabiliza comparações.

LETRA MAGNA -Qual o lugar da Gramática Tradicional nos estudos sobre a língua hoje? Existe lugar para ela no século XXI?


Certamente sim. A gramática tradicional tem uma preocupação normativa, que se mantém porque atende a interesses da comunidade lingüística. E tais interesses, por sua vez, decorrem da própria organização social da comunidade. Portanto, até que tenhamos uma organização social completamente distinta da que temos hoje, a comunidade vai continuar exigindo a explicitação de normas de uso da língua e as gramáticas normativas continuarão mantendo seu lugar.

LETRA MAGNA - A senhora acredita que os gêneros digitais (blogs, fotologs, orkut, messangers, etc...) trarão alguma conseqüência para a sintaxe da língua portuguesa?


A agilidade da escrita nestes meios possivelmente fará com que o ritmo das mudanças seja acelerado. Entretanto, não se deve desconsiderar que mudanças lingüísticas são lentas, demoram duzentos, trezentos anos. Uma aceleração nesse processo certamente vai significar apenas uma leve diminuição nesse extenso espaço temporal.

LETRA MAGNA -Como a senhora vê a formação dos professores das séries iniciais e mesmo dos professores de Letras? Eles têm formação gramatical adequada?


Não atuo na formação de professores de séries iniciais e, por isso, não poderia fazer qualquer apreciação. Mas, quanto aos alunos de Letras, creio que ainda falta, em sua formação, uma clara orientação quanto a que atividades realizar para atingir os diferentes objetivos que cabem ao professor de língua materna. Nossos cursos sobre gramática normativa têm grande procura. Os alunos sentem necessidade de dominar o conteúdo das gramáticas tradicionais. Entretanto, não se deve confundir o uso das gramáticas pelo professor e o uso das gramáticas por alunos de 1o. e 2o. graus, pois cada grupo tem propósitos distintos. Essa distinção quanto aos propósitos não tem recebido a devida atenção no curso de Letras.

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