JAIR ANTONIO DE OLIVEIRA

Especialista em Filosofia da Educação (PUC/PR), Mestre em Lingüística (UFPR) e Doutor em Ciências da Comunicação (USP). Professor no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná e autor de inúmeros artigos sobre Pragmática Lingüística.

Por Artarxerxes Modesto

 

LETRAMAGNA: Quem é Jair Antonio de Oliveira? Fale um pouco de sua trajetória acadêmica, suas principais realizações e projetos.

 

Jair Antonio: Sou formado em Letras e Jornalismo. Fiz mestrado em Lingüística (UFPR), doutorado em Ciências da Comunicação (USP) e pós-doutorado em Pragmática Lingüística na Unicamp . Sou professor efetivo na Universidade Federal do Paraná e coordeno o grupo de pesquisa “Mídia, Linguagem e Educação-MEDUC”. Também participo do grupo de pesquisa “Linguagem e Identidade: Abordagens Pragmáticas” coordenado pelo prof.Dr. Kanavillil Rajagopalan (Unicamp). Atualmente, pesquiso o uso da polidez lingüística nas relações interpessoais no Brasil. O objetivo é refletir sobre o entorno político e moral da polidez lingüística nas interações a partir do “jeitinho brasileiro” e da noção de “cordialidade”.

 

LETRAMAGNA: Como o senhor definiria a “Pragmática” hoje? Qual a sua importância na Lingüística e no cenário das pesquisas baseadas em oralidade?

 

Jair Antonio: Há tantas Pragmáticas atualmente que o termo precisa ser “desconstruído” (no sentido proposto por Jacques Derrida). Mas, como você quer uma definição, vou usar a que foi proposta por Mey (1993): Pragmática é uma perspectiva sobre os processos de produção da linguagem e de seus produtores e não exatamente em torno do produto final, a linguagem . Quanto à segunda questão, não considero a Pragmática como um componente da Lingüística, mas uma perspectiva sobre a Lingüística. Este viés torna a Pragmática importante nos processos explanatórios, descritivos e, principalmente, emancipatórios de diferentes pesquisas, pois a pergunta vital para a pragmática é: “Por que este enunciado foi produzido”?

 

LETRAMAGNA: Quais são os principais nomes da Pragmática no Brasil? E em termos globais? Quais as correntes mais evidentes nas pesquisas atuais?

 

Jair Antonio: No Brasil o professor Kanavillil Rajagopalan (IEL) é indiscutivelmente o nome de maior destaque. Em termos globais, o professor Jacob Mey (Odense University) e Jef Verschueren (University of Antwerp). É claro que há outros nomes; mas estes são pesquisadores de uma vertente “social”, isto é, pessoas que estão preocupadas com o entorno político e transformatório de suas idéias sobre a Pragmática. Sinceramente, acredito que para um país como o nosso, com parcos recursos para trabalhar nesta área, é preciso que as pesquisas resultem em intervenções na realidade das pessoas. Isto aponta para uma das correntes mais evidentes no momento, a “Pragmática Social”, que considera a linguagem uma forma de ação social e, portanto, resistente a toda tentativa de ser dominada por meio de regras determinísticas, lógicas etc. Por outro lado, há um movimento forte encabeçado pelos “neo-griceanos” cujo foco é a noção de relevância na comunicação. Aqui o nome de Dan Sperber e Deidre Wilson são os destaques. Gostaria de frisar aqui as palavras de Levinson (1989) em relação ao pensamento desses autores: “(...) um esforço ambicioso para uma mudança de paradigma na pragmática (...) a pragmática é reduzida a um único princípio cognitivo, um reflexo mental, que governaria muito mais além do uso da linguagem. Na verdade, dentro do novo paradigma, a pragmática desaparece numa singela teoria de processo geral de pensamento”.

 

LETRAMAGNA: Qual a linha que separa a filosofia da lingüística, em termos de um pensamento pragmático? E em que medida a Pragmática se distingue da Semiótica e da Semântica?

 

Jair Antonio: Estabelecer uma linha separando a filosofia e a lingüística implica em estabelecer diferentes objetos de conhecimento. Como o pensamento pragmático é anti-dicotômico e anti-essencialista não se presta a esta tarefa. Evidentemente, há um esforço feito por teorias “ditas” pragmáticas que tentam delimitar, estabelecer fronteiras rígidas e tornar a linguagem previsível pela forma. Não dá para omitir que Wittgenstein, Austin, Grice, Searle e Rorty são filósofos e as reflexões que fizeram ocupam o escopo da lingüística e da Pragmática. Se tal linha existe é muito tênue, colocada entre as disciplinas meramente por uma tradição e não por outro critério válido. Então, a distinção entre as disciplinas, como você pergunta, não é uma questão fácil para responder objetivamente, pois há uma “crise” em torno da identidade das disciplinas na atualidade e em certos momentos a Semântica, a Pragmática e a Semiótica se confundem. Aliás, esta questão remete ao Morris (1938), que coloca a Teoria Lingüística como um ramo da Semiótica, mais abrangente, e cujo papel é a descrição e explicação dos sinais lingüísticos segundo três subdivisões: a Sintaxe, a Semântica ( que apreenderia a dimensão semântica da semiose, estudando a relação dos signos com os objetos que eles designam  e a Pragmática (que apreenderia a dimensão pragmática da semiose, estudando a relação dos signos com os intérpretes ou usuários.

 

LETRAMAGNA: Como ela se intersecciona com outras áreas da Lingüística?

     

Jair Antonio: A Pragmática não pode ignorar nenhuma área da Lingüística. Mas, convém ressaltar que tal cruzamento envolve tipos de conhecimento que vão além das regras de sintaxe e semântica. Não requer, apenas, habilidades verbais por parte dos usuários, mas o domínio de uma ampla variedade de capacidades sócio-cognitivas. Para a Pragmática, por exemplo, interessa a ênfase nos fatores que, mesmo não estando explicitamente manifestos nos comportamentos lingüísticos, ainda assim determinam os sentidos desses usos.

 

LETRAMAGNA: Como surgiu o “ponto de vista pragmático” da linguagem?

 

Jair Antonio: É uma longa história “filosófica”. Para encurtar, vou contar a historinha repetida nos manuais, ou seja, que o lógico israelense Bar-Hillel chamou a Pragmática de “a lata de lixo da lingüística” e que esta lata de lixo transbordou com tantos  problemas não resolvidos pelas abordagens formais, passando, então, a ser objeto de atenção nas academias.

 

LETRAMAGNA: Quais os conceitos mais importantes que o pesquisador deve saber ou dominar para trabalhar com a Pragmática?

 

Jair Antonio: Primeiro, o pesquisador não deve assumir uma postura onde o “uso” efetivo da linguagem ocupa uma posição secundária em seus interesses científicos. Depois, repetindo o que sempre diz o professor Rajagopalan, é importante que a pesquisa pragmática deixe de adotar modelos explanatórios prestigiados nas ciências exatas, onde explicar significa prever futuras ocorrências do fenômeno em estudo, pois a prática lingüística se distingue pelos tropeços, acasos e imprevisibilidades.   Quanto aos conceitos mais importantes, são os princípios pragmáticos, a intencionalidade, implicatura, atos de fala, performativos, atos pragmáticos, contexto, crenças, pressupostos, dêiticos e outros.   

 

LETRAMAGNA: Qual é o motivo de se falar em “graus” no estudo pragmático? Qual a diferença entre esses “graus”? Como se passa de um grau para outro, na perspectiva da análise?

 

Jair Antonio: Voltemos ao Morris, já citado . Na tríade que ele propõe, a Sintaxe tem um “grau” (estou usando os termos de sua pergunta) muito mais próximo ao “cerne” da linguagem que a Pragmática. Quer dizer, o “grau” de análise sintático é, potencialmente, privilegiado diante dos outros “graus”, mais distantes, periféricos. É isto que encontramos nas concepções formalistas da linguagem; uma divisão estanque em “graus” ou “níveis” dependentes de um núcleo dotado de autonomia (Sintaxe). Metodologicamente, a idéia de “grau” no estudo pragmático é defendida por muitos pesquisadores que argumentam que tais estágios garantem a manutenção do foco na investigação. Não estão fazendo Pragmática, estão colocando a prática lingüística em uma “camisa de força”.

 

LETRAMAGNA: Fale um pouco das pesquisas feitas sob a perspectiva pragmática no discurso midiático. Quais foram os avanços nos últimos anos?

 

Jair Antonio: Há dez anos atrás era difícil encontrar trabalhos acadêmicos envolvendo a Pragmática e a Mídia. Felizmente, esta realidade mudou bastante. Muitos cursos de Comunicação (como é o caso da UFPR) ofertam disciplinas onde a relação mídia e Pragmática é discutida. Particularmente, como jornalista, acredito que os conceitos pragmáticos, em especial a noção de força ilocucionária (Austin), é vital para a produção e consumo dos textos midiáticos. 

 

LETRAMAGNA: É incontestável que os usos da Internet e suas ferramentas de interação são agora uma constante na vida do homem do século XXI. Como essa “revolução comunicacional” transformou e/ou pode, ainda, transformar ainda mais a vida do homem e suas relações sociais?

 

Jair Antonio: As tecnologias digitais constituem o que há de mais extraordinário na história da humanidade. No entanto, este avanço não representa uma “revolução” para toda a humanidade ou que as pessoas estão se comunicando mais. O Brasil tem 185 milhões de habitante e somente 45 milhões têm acesso à internet. Portanto, 140 milhões estão na periferia. A idéia de que os meios digitais promovem a “interação” entre as pessoas também é discutível. O indivíduo que prefere ficar 5 ou mais horas por dia trancado em um quarto, diante do computador, enviando e recebendo textos de pessoas que nunca viu ou verá, não está interagindo. É claro que podemos deslocar a metáfora “interação” para o contexto digital; mas sem as coordenadas corporais (e sociais) típicas e necessárias para a relação pessoal. A reflexão é do Bourdieau e o Mey também aproveitou esta dica. Os meios eletrônicos descorporificam a mensagem vinda de um humano para outro; extraem o componente informacional e desconsideram o modo como a informação é conduzida na e pela hexis corporal. Ainda de acordo com o professor Mey, é importante considerar que a comunicação ( e a conseqüente interação) é uma prática humana, que não pode ser separada do contexto corporal e ambiental. Em um artigo que escrevi sobre a intenção na internet, usei metáforas retiradas de um livro do Alan Kardec, sobre o espiritismo, pois são as metáforas ideais para retratar a atual troca de informações pela rede.  Não sou contra as inovações, pois não consigo imaginar o mundo sem estas ferramentas. Mas são apenas ferramentas. Saber usá-las em sala de aula, na vida, e permitir o acesso de todos a estes meios é o mais importante agora. Neste aspecto, uma “Pragmática da Era Digital” é necessária para evitar o “deslumbramento” dos indivíduos diante da capacidade ilimitada da tecnologia e impedir o surgimento de uma categoria de “analfabetos digitais”. É engraçado como a história se repete (e nós esquecemos disto). Quando a imprensa surgiu, os “elisabetanos” também ficaram em uma situação parecida com a nossa. Ou seja: hoje em dia ocorre a inserção de um público ainda leigo na cultura do papel em uma tecnologia eletrônica. Os elisabetanos estavam entre a pena/pergaminho e a tipografia. Atualmente, há ausência de políticas globais para a educação e comunicação eletrônicas. Os elisabetanos também se defrontaram com um novo universo de ocupações e tarefas sem nenhuma assistência. XXX

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