Paulo Hernandes

Por Renira Appa Cirelli

Assessor do Presidente da República na área de produção e revisão de textos
Professor de Lingüística e Língua Portuguesa em cursos de graduação em Letras
Professor de Semântica e Lexicologia em cursos de pós-graduação em nível de especialização



LETRA MAGNA -Em sua página inicial o senhor fala a respeito dos conceitos gramaticais em pespectiva moderna. Poderia dissertar um pouco mais sobre esse posicionamento?

HERNANDES - O posicionamento a que me referi é "moderno" porque é arejado pela abertura proporcionada pela vivência nas lides da Lingüística. Isso acarreta, por exemplo, o entendimento de que praticamente não há falar "errado", uma vez que a norma culta e a popular são igualmente válidas no padrão oral. É claro que no que se refere à língua escrita o padrão formal deve ser obedecido. Assim, não me deixo dominar pelo dogmatismo excessivo e pela rigidez dos puristas. A propósito, adoro o Língua e liberdade, do Luft, texto certamente considerado "herético" por aqueles.

LETRA MAGNA -Como tem sido a aceitação dessa "abertura gramatical" pelos puristas de nossa língua?

HERNANDES - Eles sofrem muito para aceitar a evolução da língua. Gostariam, como consta da obra citada, que no Brasil "ainda falássemos o português de Portugal, de preferência o arcaico". Entretanto, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não considero, como vejo em algumas opiniões que penso equivocadas, que falemos o "brasileiro" aqui.

LETRA MAGNA -Citando-o: "a contínua evolução da língua ao serem admitidas formas tradicionalmente não aceitas, mas que encontram amparo em especialisata respeitados..." Poderia nos dar alguns exemplos mais específicos?

HERNANDES - Sim. A evolução de regências verbais, por exemplo. Aceito sem nenhuma dificuldade a transitividade direta de verbos como aspirar, visar e assistir com os sentidos de "desejar", "ter em mente" e "presenciar". O dicionário de regência verbal do Luft - ainda ele -, citando alguns autores, abona esse uso. Outro exemplo é a aparente regência preposicional do sujeito em construções como "Está na hora da onça beber água", admitidas por Evanildo Bechara, que se justifica dizendo não se tratar de o sujeito ser regido por preposição, mas apenas da combinação - natural, em português - da preposição "de" com o artigo definido. Embora eu prefira não escrever assim, não condeno quem o faz. A seção "Dicas de português", do meu saite, contém páginas que tratam desses dois temas. Outro uso que admito, execrado pelos puristas, é a permanência do verbo no singular em construções como "Vendem-se casas". Se, em orações como essa, entendermos exercer o "se" a função de partícula de indeterminação do sujeito, ela não estaria correta? Cheguei à conclusão de essa condenação ser fruto da "galofobia" lusitana (que tem explicação histórica), que contaminou de forma irremediável nossos gramáticos. Entretanto, nas respostas que dou a consultas, alerto os usuários sobre os riscos de assumir essa posição em provas de vestibulares e concursos.

LETRA MAGNA - Quando e como surgiu a idéia do site? O senhor o realizou e o mantém sozinho ou conta com a contribuição de outros professores/
técnicos/especialistas?

HERNANDES -O saite (www.paulohernandes.pro.br) é desdobramento de outro, muito mais simples e modesto, que criei para divulgar curso presencial de Semântica Lexical que estruturei. Ministrei-o por cinco vezes em curso de especialização em Língua Portuguesa em uma universidade particular aqui de Brasília. Depois de alguns anos, decidi ampliá-lo (e como foi ampliado!) para retribuir à rede todas as informações que vinha recebendo gratuitamente. Isso incluiu também a implementação de serviço, igualmente gratuito, de esclarecimento de dúvidas de português e Lingüística, que atende usuários do mundo inteiro, sem exagero. O conteúdo é apenas de minha autoria, trabalho sozinho. A tarefa de colocá-lo na internet está, desde o início, em 2000, a cargo da "webmaster" Sílvia Ramos, de São Paulo (SP). Nunca recebi qualquer apoio financeiro de pessoas ou organizações, públicas ou privadas.

LETRA MAGNA - Seu site tem navegação muito confortável e bastante didática. Ao dar explicações sobre partes gramaticais, faz uma pergunta final que permite verificar a assimilçao do conteúdo. Haveria espaço para mais perguntas?

HERNANDES - Obrigado pelos comentários sobre a navegação no saite. Acho fundamental espaços desse tipo terem navegação fácil. Sobre a questão, até poderia haver mais perguntas em algumas das páginas das dicas, mas a exigüidade de tempo livre não permite estender-me mais.

 

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