Lélia Erbolato Melo


Doutora em Linguistique Générale Portugais pela Universite de Paris IV , pós-doutorado pela Universite de Paris V. Livre Docente na Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Lingüística , com ênfase em Psicolingüística.

Por Giovanna Wrubel Brants


LETRA MAGNA – Professora Lélia, conte-nos um pouco sobre sua admirável trajetória acadêmica, e sobre a sua opção por se especializar na área de Psicolingüística

PROFESSORA LÉLIA - Lélia Erbolato Melo nasceu em São Carlos, SP. Atualmente, é docente e orientadora (Mestrado e Doutorado), área de Psicolingüística, no Programa de Pós-Graduação em Lingüística (FFLCH/USP). Tendo feito inicialmente a graduação (bacharelado e licenciatura) em Letras neolatinas na Universidade Católica de Campinas, foi para a França, onde se licenciou em Lingüística, pela Sorbonne. Doutorou-se em Lingüística pela Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). Fez o pós-doutorado em Psicolingüística na Universidade “René Descartes” (Paris V), e mais recentemente o concurso de livre-docência (área de Psicolingüística), na Universidade de São Paulo. Foi coordenadora de três projetos de pesquisa em nível de Cooperação Internacional com a França (USP/COFECUB e CAPES/COFECUB), Universidade de São Paulo e Universidade “René Descartes”, na área de Aquisição de Linguagem.
Traduziu para o português, pela editora Pró-Fono, F. FRANÇOIS (1996). Práticas do oral: teorias & práticas. Diálogo, jogo e variações das figuras do sentido. Organizou o livro Tópicos de psicolingüística aplicada (1999), pela editora Humanitas/FFLCH-USP, em que colaboram cinco orientandas. Organizou, juntamente com o Prof. Dr. Christian Hudelot (2000), Psycholinguistique au Brésil, revista CALaP, fasc. 20, Département de Linguistique, Université “René Descartes”,Paris (França). É autora de artigos sobre aquisição de linguagem, discurso narrativo, entrada da criança na escrita, discurso explicativo.
* Observação: a resposta à questão – “sobre minha opção por me especializar na área de Psicolingüística”: v. questão 3.

LETRA MAGNA– E quanto ao Grupo de Pesquisas em Psicolingüística (GPPL-USP), coordenado pela senhora - como foi o seu processo de constituição e quais são os seus objetivos primordiais?

PROFESSORA LÉLIA – O Grupo de Pesquisa em Psicolingüística/GPPL foi criado no dia 17 de junho de 2003, a partir da constatação de um interesse temático comum de estudo e pesquisa existente entre mestrandos, doutorandos; mestres, doutores e professores oriundos de cinco Universidades. Neste sentido, o objetivo é repensar e discutir inicialmente a relação entre linguagem/cognição/semiótica. Em seguida, priorizando destro deste contexto a explicação como movimento discursivo onde se inscreve a justificação ou a explicação, a intenção é refletir também sobre os liames de familiaridade da Conduta Explicativa/Justificativa (CEJ) com a de tutela, a argumentação, a explicitação e a explicação causal, levando em conta a produção oral decorrente da interação adulto-criança.

LETRA MAGNA– Qual o seu ponto de vista a respeito da intersecção da Psicolingüística com outras subáreas da Lingüística, como a Pragmática e a Análise do Discurso? E com outras áreas do conhecimento, como a Fonoaudiologia?

PROFESSORA LÉLIA – Meu olhar é bastante otimista em relação a esta intersecção entre a Psicolingüística com outras áreas de estudo, e vem crescendo cada vez mais. Observo este crescimento, enquanto docente (Pós-Graduação), pesquisadora e orientadora, junto ao Departamento de Lingüística/USP.
Na verdade, esta observação começou no momento de meu pós-doutorado em Psicolingüística, realizado na França (Paris), entre os anos de 1993 e 1995, especialmente, nos contatos estabelecidos com o Prof. Dr. Frédéric François (Paris V). De lá para cá, embora priorizando em estudos e pesquisas a área de “Aquisição da escrita” (v. MELO, L. E. Em busca de alternativas para a entrada da criança na escrita. São Paulo: Humanitas/FFLCH-USP; Unicsul, 2003) e “Aquisição de linguagem” (v.meus artigos publicados, por exemplo), diria que hoje é grande o número de trabalhos interdisciplinares na área da Psicolingüística. Neste contexto, gostaria de destacar, nestes últimos anos, a parceria entre a Psicologia e a Lingüística, com o objetivo de estabelecer a interação entre as estruturas lingüísticas e o processamento mental, por exemplo, de buscar uma relação entre a análise lingüística e a experimentação psicológica (MELO, L.E. (org.).Compreensão e produção na criança. São Paulo, Associação Editorial Humanitas; Unicsul, 2205). Outro campo promissor a ser lembrado é o da Psicolingüística Aplicada, geralmente utilizado para identificar os estudos da Psicolingüística voltados para questões de aplicação das descobertas do campo, e para a diversificação dos interesses da própria área de Psicolingüística Aplicada (v. MELO, L. E. (org.). Tópicos de psicolingüística aplicada. 3ª. ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas/USP, 2005).


LETRA MAGNA– Nos últimos anos, temos nos deparado com uma série de estudos a respeito da teoria da mente (theory of mind) no processo de aquisição de competências lingüísticas pelas crianças. Fale - nos um pouco sobre essa teoria.

PROFESSORA LÉLIA - Por um lado, especialistas como M. Tomasello, D. Premach (pioneiro dos estudos sobre a teoria da mente) foram levados a questionar a aptidão dos chimpanzés no reconhecimento das intenções do outro. Por outro lado, o reconhecimento de que a teoria da mente seria, portanto, uma especificidade da cognição humana. No entanto, um dos grandes desafios para a teoria da mente seria responder à questão – “Afinal, em que idade, ou em que momento, apareceria a teoria mente nas crianças?” Parafraseando Veneziano & Hudelot (2002), esta teoria se propõe “a estudar o estado de conhecimento que as crianças pequenas têm do mental [de si mesmas] e do outro”. Ou melhor, em que medida o sujeito compreende que estados mentais, internos e inobserváveis existem, tais como vontades, conhecimentos, crenças..., como eles influenciam os comportamentos dos indivíduos, e como podem ser diferentes entre os indivíduos. Finalmente, outro fato a ser assinalado: pesquisadores como Baron-Cohen, Leslie e Frith estabeleceram um vínculo entre autismo e teoria da mente. As crianças autistas teriam um déficit específico na capacidade de compreender as intenções do outro; daí suas dificuldades características de comunicação. Entretanto, pesquisas mais recentes contradizem esta relação há muito tempo admitida.
Concluindo, outra pista de pesquisa baseia-se nos liames entre teoria da mente e linguagem. Nascida para resolver definitivamente um velho debate sobre a especificidade da mente humana, a teoria da mente tornou-se uma imensa e rica fonte de pesquisa.

LETRA MAGNA– Para finalizarmos nossa entrevista, gostaríamos de saber qual é a sua visão geral sobre os estudos e pesquisas brasileiras que vêm sendo produzidos na área de Psicolingüística, atualmente.

PROFESSORA LÉLIA – Lembrete: (v. resposta à questão 3)


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