Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva


Professora titular da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e  pesquisadora do CNPq. Atua na Graduação em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos, nas  linhas de pesquisa em Lingüística Aplicada e em Linguagem e Tecnologia.


1 - O que caracteriza o hipertexto? Quais são as suas especificidades?

 

O termo hipertexto foi cunhado por Ted Nelson, em 1960, em um projeto desenvolvido quando aluno de pós-graduação, em Harvard (WHITEHEAD, 1961). Hipertexto designa uma coleção de documentos com links, ou hiperlinks, que auxiliam o leitor a ir de um texto (texto escrito ou imagem) a outro, em um movimento auto-gerenciado. O hipertexto se caracteriza pela não-linearidade, pela liberdade do percurso que o leitor pode construir.

            Em entrevista, concedida à Jim Whitehead (1996), Nelson explica que ele se inspirou em sua experiência de escritor. Segundo ele, o escritor enfrenta dificuldade em colocar o conteúdo das histórias em seqüências lineares, que nem sempre retratavam a complexidade de sua história. Quando o leitor se depara com um texto ficcional, ele tem a tarefa de, através da seqüência linear, recompor o conteúdo e colocá-lo, novamente, em sua estrutura não linear. A idéia foi economizar, tanto para o autor como para o leitor, tempo e esforço, ao reunir e compreender o que estava sendo apresentado através de hipertextos.

            A princípio, poderíamos pensar que o hipertexto depende do autor que cria os links, mas hoje com os mecanismos de busca cada vez mais inteligentes, qualquer leitor na web pode utilizar hipertexto, saindo do texto e voltando ao mesmo, sempre que quiser aprofundar seu conhecimento sobre algum tópico ou encontrar alguma informação rápida sobre algo mencionado no texto. Já existe software, por exemplo, que transforma um texto inteiro em hipertexto, associando cada palavra ao correspondente verbete em um dicionário.

 

 

2- O que caracteriza os gêneros virtuais (ou digitais)?

 

Shepherd e Walters (1999, p.1) afirmam que os gêneros são, geralmente, caracterizados pela forma e pelo conteúdo e que pouca atenção é dada à funcionalidade das mídias. No caso dos gêneros virtuais, ou digitais, os usuários têm certas expectativas em relação à funcionalidade, além da forma e do conteúdo. O que caracterizaria, então, esse tipo de gênero seria um conjunto de aspectos da funcionalidade, tais como a hipertextualidade, a interatividade, e a democratização do acesso, pois qualquer um pode ter acesso aos gêneros digitais. Mesmo que alguém diga que nem todo mundo está conectado à Internet, há terminais públicos em bibliotecas, livrarias e em instituições governamentais e não-governamentais.

Quanto à forma, os gêneros digitais, pela sua própria natureza, oferecem maior possibilidade de multimodalidade, podendo integrar texto, imagem, vídeo e som. É claro que alguns aspectos da funcionalidade sofrem restrições ora da tecnologia e ora das instituições, pois, nem sempre, um usuário pode, por exemplo, ver um vídeo, seja por limitações tecnológicas (tipo de equipamento e de acesso à Internet) ou por restrições impostas por quem detém o controle sobre um terminal de computador. Com o perigo de invasão de hackers ou contaminação por vírus, as redes, especialmente nas organizações onde há muitos usuários, limitam o acesso a certos sites, impedem instalação de software e utilização de chat.

            Alguns gêneros digitais são evoluções de outros já existentes no suporte impresso ou no vídeo (ex. vídeo clip, conto, fotografia). Outros nasceram com a nova mídia, como o fórum e o chat, para citar apenas dois exemplos.

 

3- O que diferencia a linguagem usada na internet das outras manifestações lingüísticas?

 

Considero que, hoje, vivemos duas instâncias de uso da linguagem. A “real” e a virtual. Muitas atividades mediadas pela linguagem, em interações face a face ou mediadas por papel,  áudio ou vídeo, podem, hoje, ter sua contrapartida na Internet, ou seja, pela mediação do computador. Nesse sentido muda apenas o suporte.

No entanto, a Internet oferece tecnologias que permitem a criação de textos graficamente mais criativos e novas formas de comunicação e interação que superam limites de tempo e espaço. O mais interessante para mim, é que a linguagem da Internet possibilita a criação de uma inteligência coletiva. Em texto no prelo, Paiva (2005) (http://www.veramenezes.com/comunidades), discuto esse conceito.

 

Utilizando os termos de Lévy (1998), podemos dizer que a Internet permite uma “coordenação das inteligências em tempo real” e atinge uma “mobilização efetiva das competências”, potencializando interações que produzem “um comportamento globalmente inteligente”. Diz Lévy:

 

Interagindo com diversas comunidades, os indivíduos que animam o Espaço do saber, longe de ser os membros intercambiáveis de castas imutáveis, são ao mesmo tempo singulares, múltiplos, nômades e em vias de metamorfose (ou de aprendizado) permanente.

Esse projeto convoca um novo humanismo que inclui e amplia o “conhece-te a ti mesmo” para um “aprendamos a nos conhecer para pensar juntos”, e que generaliza o “penso, logo existo” em um “formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade”. Passamos do cogito cartesiano ao cogitamus.(p.31-32)

 

As tecnologias da Internet possibilitam a expressão do pensamento e a transmissão de informação, mas é na ênfase na interação que reside seu diferencial. Os gêneros, tipicamente virtuais, permitem uma interação criadora, pois cada enunciador é um co-construtor do texto, um co-autor ou um co-criador. Uma página de fórum educacional nos mostra a co-construção de textos acadêmicos, através de interações entre seus membros. Os blogs oferecem espaço para comentários de seus leitores, o chat é co-construído localmente de forma semelhante à conversa espontânea, com a diferença que se materializa na tela e pode ser arquivado e até impresso.

 

4- Apesar de toda a diversidade lingüística nacional (variações regionais), percebemos que os recursos usados para comunicação entre internautas parece seguir alguns padrões, apesar da aparente "desordem" lingüística. Os internautas de todo o Brasil conseguem se compreender perfeitamente, pois utilizam os mesmos sinais gráficos, abreviaturas, emoticons, etc. Como a senhora explica esse fenômeno?

 

Eu acho que fazem muito barulho sobre isso. Há alguns anos fiz uma coleta de dados com adolescentes internos na FEBEM e, em vários momentos, de nossa interação, eles usaram a linguagem do “p” e outras linguagens que eu não conseguia compreender e muito menos utilizar. Ou seja, usaram recursos de uma comunidade lingüística, a qual eu não pertencia, de forma a me isolar ou mesmo deixar evidente que eu não pertencia ao grupo.  Minha filha “tipo assim”, se refere a ônibus como balaio e usa várias palavras que não fazem parte de minha comunidade discursiva. Muitas vezes, tenho que pedir a ela que traduza o que está dizendo.

Assim como não me interessava aprender os códigos dos internos da FEBEM, também não me interesso em aprender as gírias que minha filha usa ou as formas de interação no “chat”. Eu simplesmente não pertenço àquelas comunidades discursivas, mas se o fizesse, aprenderia rapidamente as novas formas de comunicação, pois nós, os humanos, temos a capacidade de linguagem que nos permite aprender e utilizar várias formas de expressão.

Entendo que não existe desordem lingüística, e nem ameaça aos códigos já estabelecidos. Tanto é assim, que os usuários do chat não enfrentam problemas de comunicação quando interagem com outras comunidades discursivas. Nunca vi nenhum professor ou pais reclamando que não conseguem interagir com os adolescentes que usam muito o chat. A mudança de código de acordo com o contexto, faz parte da competência comunicativa de todo falante. É Interessante observar que ninguém implica com a linguagem usada na transmissão de mensagens pelo celular, a SMS (short message service). No entanto, ela também é cheia de supressões e abreviaturas, pois precisa se adequar ao espaço da tela do celular, assim como o chat precisa se adequar ao tempo, à ligeireza da interação típica desse gênero. Talvez, a tolerância possa ser explicada pelo fato de ser a primeira do domínio privado e não do público, como é o caso do chat.

 

 

5- Com o surgimento dos "e-books", a senhora acredita que haverá a substituição gradual dos livros tradicionais de papel, até a sua completa extinção, ou "nada substitui o livro"?

 

Da mesma forma que o teatro, o rádio, e o cinema não morreram com o advento da televisão, acredito que o livro não morrerá. Os e-books, principalmente os publicados na web, vão ajudar na divulgação mais democrática do conhecimento, mas a leitura intensiva na tela não é algo confortável. A portabilidade do papel ainda não enfrenta competição com o computador. Laptops ainda são caros, pesados e as baterias têm duração limitada. Minha filha, por exemplo, adora ler andando dentro da piscina. Isso é inimaginável com a mídia eletrônica.

No entanto, algumas modalidades de textos impressos deverão migrar para o mundo digital. Refiro-me aos periódicos e aos textos não-lineares como o dicionário e a enciclopédia, os dois últimos pela facilidade de busca e acesso à informação. As bibliotecas das universidades federais não recebem mais verba para periódicos e o acesso a eles foi expandido pelo portal da CAPES. Quanto às enciclopédias, o novo meio é mais eficaz, pois o conhecimento muda rapidamente e é mais fácil atualizá-lo na web do que fazer reimpressões.

            É interessante lembrar também que a Internet complementa a mídia impressa. Alguns livros e revistas vêm acompanhados de CD-Roms e revistas de circulação nacional oferecem aos seus leitores informações extras, incluindo áudio, de matérias da semana, com acesso, geralmente limitado ao código do assinante ou do exemplar.

            No nosso caso, a circulação de nossos textos é tão restrita que eu até torceria para que o livro acabasse. Assim não estaríamos submetidos à lógica do lucro das editoras e poderíamos circular o conhecimento de forma barata e rápida. Optei por colocar tudo o que escrevo na Internet e isso tem feito com que meus textos circulem mais, até no exterior.

 

6- A língua usada na internet é uma modalidade falada por escrito ou uma modalidade escrita com erros ortográficos? Como a senhora compreende os recursos usados nas manifestações eletrônicas?

 

Na Internet, temos uma grande variedade de registros que se inserem em um continuum que vai da oralidade à escrita. Quando digo escrita também penso em um continuum da escrita informal à escrita acadêmica. No continuum da oralidade, podemos interagir usando um microfone, logo linguagem oral, ou podemos usar o chat que, por sua agilidade exige que usemos um código que se aproxima da oralidade, dela tomando, de empréstimo, muitos traços, como, por exemplo, o jorro de idéias sem muita restrição sintática.

Os gêneros e suas características determinam o tipo de linguagem a ser utilizada. Houve uma época, por exemplo, que os telegramas grafavam vírgula como VG e ponto como PT, devido às restrições da tecnologia. Como o preço é por palavra, simplificava-se o texto ao máximo, mas ninguém ficava chocado com isso.

Da mesma forma, a natureza do e-mail e do chat, incluindo seus usuários, determinam o tipo de linguagem: abreviaturas para atender à agilidade do gênero e emoticons para suprimir a ausência de dados do contexto, tais como o riso e as expressões faciais.

É preciso lembrar que essas características são típicas desses dois gêneros e podem se estender aos blogs. No entanto, a Internet veicula muito mais do que isso e usa outros registros que não diferem dos meios impressos.

 

7- E quanto ao e-mail? Ele pode ser considerado um gênero virtual/digital? Quais as características que o definem como tal?

           

Em texto publicado em Paiva (2004), defendo que o e-mail, como o correio eletrônico, é um meio de transmissão de vários gêneros. Mas que existe um novo – o e-mail ou mensagem eletrônica –  que serial uma mistura de vários gêneros. Naquele texto, defino e-mail da seguinte forma:

 

(...) um gênero eletrônico escrito, com características típicas  de memorando, bilhete, carta,  conversa face a face e telefônica, cuja representação adquire ora a forma de monólogo ora de diálogo e que se distingue de outros tipos de mensagens devido a características bastante peculiares de seu meio de transmissão, em especial a velocidade e a assincronia na comunicação entre usuários de computadores. (p.77-78)

 

Quanto às suas características, podemos elencar: a velocidade na transmissão; o baixo custo; a assincronia na comunicação; a possibilidade de ser enviado e reenviado a milhares de pessoas no mundo inteiro; a possibilidade de inserção de hipertextos em formato de links ou de anexos; e a facilidade de manipulação: pode ser lido na web, baixado para o computador pessoal, reproduzido e impresso.

 

 

8- O que é "Netiqueta"?

 

A netiqueta é uma coleção de normas de interação que podem ser descritas de acordo com algumas máximas, como descrevi em Paiva (2004, p.82)

 

Utilizando as máximas de Grice (1972) – modo, qualidade, quantidade e relevância – e de Robin Lakoff (1973) – polidez –  que prescrevem como deve ser o comportamento do falante cooperativo, analiso da seguinte forma as instruções mais recorrentes em textos de netiqueta.

 

Máxima do Modo: identifique-se; não use caixa alta; especifique o assunto; seja claro, objetivo; use os emoticons para minimizar a ausência do contexto.

Máxima da Qualidade: Não envie hoaxes (mensagens mentirosas) e scams (contos do vigário; fraudes ).

Máxima da Relevância: especifique o assunto; evite mensagens fora do tópico da lista; não envie spam (mensagens indesejadas).

Máxima da Quantidade: apague as linhas das mensagens recebidas, deixando só as partes essenciais; mensagens individuais não devem ser mandadas para a lista; evite cross-posting (envio da mesma mensagem para várias linhas); evite arquivos atachados.

Máxima da Polidez: evite flames (mensagens agressivas); respeite a privacidade (não torne pública sua correspondência particular); “Say hi and bye” (use aberturas e fechamentos)

 

9- O surgimento e utilização cada vez mais ampla do e-mail sugere o fim das cartas via correio?

 

Acredito que sim. Ao abrir a sessão de carta do leitor na revista Veja, por exemplo, você verá que o número de e-mails é muito superior ao de cartas. A edição de 28 de setembro registra que a revista recebeu 2031 e-mails, 43 textos em fax e 40 cartas. Parece que isso é uma evidência de que a carta está em queda. No entanto, o correio está adquirindo nova função, pois o comércio virtual precisa de seus serviços para finalizar as transações on-line.

 

 

10- Existe um padrão para a redação/organização do texto em e-mails?

 

 Em Paiva (204, p.), tomando como ponto de partida o editor de e-mail Outlook da Microsoft,  afirmo o seguinte sobre o e-mail:

 

Dos textos escritos, herda a assincronia. Do memorando, toma de empréstimo semelhanças de forma que é automaticamente gerada pelo software; do bilhete a informalidade e a predominância de um ou poucos tópicos; da carta as fórmulas de aberturas e fechamentos. Dos gêneros orais herda a rapidez, a objetividade e a possibilidade de se estabelecer um “diálogo”. Da conversa face a face, temos um formato que guarda alguma semelhança com a tomada de turno e a interação telefônica, além de limitações contextuais também semelhantes, mas com a possibilidade de colocar em contato pessoas que se encontram geograficamente distantes.

 

Na primeira linha, é obrigatório o preenchimento do campo com o endereço digital de um ou mais destinatários; na segunda linha, o usuário pode inserir endereços para onde serão enviadas cópias da mesma mensagem. Outro campo, embutido na segunda linha, é um espaço para cópias ocultas, ou seja, você pode enviar cópias para outras pessoas sem que o destinatário saiba. Na terceira linha temos o assunto, que segundo Crystal (2001, p.97) é um elemento crítico na tomada de decisão sobre prioridade de leitura ou até de descarte do texto. Através dos assuntos, podem ser filtradas mensagens indesejadas, utilizando-se ferramentas do próprio gerenciador de e-mails ou de outro programa. Um outra opção é a assinatura do usuário que pode ser inserida automaticamente assim que o autor inicia uma nova mensagem.

 

11- Quais são as perspectivas para o futuro quanto ao uso da internet como "canal" para criação de novos gêneros ou formas de comunicação?

 

A Internet está para os dias de hoje como a imprensa esteve para o século XV. Se a imprensa representava a possibilidade de “subversão”, a Internet é uma revolução contra a censura e a manipulação da informação.  Disseminar seu uso para fins educacionais e sociais e dar acesso aos “sem internet” são os grandes desafios que enfrentamos. Manter a Internet fora das garras dos governos ditatoriais de forma a assegurar a liberdade de expressão é um outro desafio.

Quanto aos novos gêneros, acredito que com as máquinas fotográficas, gravadores e filmadoras digitais ficando cada vez mais acessíveis e com o avanço de aplicativos para a Internet, novos gêneros devem surgir, com fortes características multimídia e hologramáticas. Devem surgir, também, novos tipos de comunidades virtuais. Entendo que o Orkut é apenas o início e que novas comunidades com novos objetivos e novos ambientes virtuais serão criadas.

 

Referências

CRYSTAL, D. Language and the Internet. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.

GRICE, H. P. Lógica e conversação. In: Fundamentos Metodológicos da Lingüística. Marcelo DASCAL (Org.) Vol. IV. Campinas, 1982.

LAKOFF, R. The logic of politeness: minding your p’s and q’s. Papers form the 9th Regional Meeting, Chicago Linguistics Society, 1973. p. 29-305.

LÉVY, P. A inteligência coletiva; por uma antropologia do ciberspaço. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

PAIVA, V.L.M.O. Comunidades virtuais de aprendizagem e colaboração .Trabalho apresentado no III SILEL, em 2004, na UFU. Uberlândia. 2005

PAIVA, V.L.M.O. E-mail: um novo gênero textual. In: MARCUSCHI, L.A. & XAVIER, A.C. (Orgs.) Hipertextos e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.p.68-90

SHEPHERD, M., & WATTERS, C. (1999). The functionality attribute of cybergenres. In: Proceedings of the 32nd Hawaii International Conference on System Sciences (HICSS '99). Disponível em http://csdl2.computer.org/comp/proceedings/hicss/1999/0001/02/00012007.PDF

Acesso em 21 de setembro de 2005.

WHITEHEAD, J. Orality and Hypertext: An Interview with Ted Nelson. Disponível em http://www.ics.uci.edu/~ejw/csr/nelson_pg.html  Acesso em 21/09/2004

 

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