Désirée Motta-Roth
Universidade Federal de Santa Maria

Por  Rodrigo Acosta Pereira


LETRAMAGNA – Profa, como a senhora avalia o “estado de arte” da Linguística Aplicada (LA) contemporânea no Brasil?

A pergunta é complexa e demanda uma longa reflexão para poder abarcar todas as direções em que a pesquisa em Linguística Aplicada pode seguir ou toda a infinidade de temas e abordagens de investigação. No entanto, me arriscando a reduzir a questão a poucas linhas, penso que o estado da arte da LA hoje no Brasil é rico em abordagens de pesquisa sobre temas centrais à área, envolvendo tecnologias inovadoras relativas à teoria e análise linguística, ao ensino de línguas e à formação de professores. A análise da língua em uso em contextos sócio-histórico-culturais específicos, o exame crítico das relações entre práticas discursivas e práticas sociais, a proposição de tecnologias pedagógicas para os multiletramentos e a multiculturalidade, a elaboração de tecnologias formativas para professores de línguas com perfil reflexivo, todos esses são temas gerais que oferecem um vasto território de investigação para os lingüistas aplicados brasileiros. Para citar apenas alguns entre os vários colegas de reconhecida competência que se identificam como Linguistas Aplicados, podemos lembrar de Vilson Leffa (UCPEL) e Vera Paiva (UFMG), que têm nos explicado sobre as relações entre aprendizagem de línguas e tecnologias; Luiz Paulo Moita Lopes (UFRJ) e Viviane Heberle (UFSC), sobre as relações entre discurso e processos identitários; Ângela Kleiman e Roxane Rojo (UNICAMP), sobre multiletramentos; Antonieta Alba Celani (PUCSP), Telma Gomenez e Vera Cristóvão (UEL), sobre formação de professores; Leila Barbara (PUCSP) e Orlando Vian Jr. (UFRN), sobre teoria e análise lingüística; ressaltando as contribuições para a teoria, análise e ensino de línguas de  José Luiz Meurer (UFSC) e Anna Rachel Machado (PUCSP), falecidos recentemente. Há também as gerações mais recentes de lingüistas aplicados que têm trazido contribuições relevantes para o campo, tais como Eliane Lousada (USP), Paula Szundy (UFRJ), Kleber Silva (UnB), Júlio Cézar Araújo (UFPe), nomes que ilustram trabalhos mais recentes em LA.

Em suma, ao se falar em estado da arte em LA hoje, deve-se pensar nos esforços de reflexão e de proposição concreta para a formação de professores com base em um pensamento crítico e complexo sobre língua em uso (perspectivas que desnaturalizem o uso e o conhecimento da linguagem como processo e produto sociais); em abordagens teóricas inovadoras pensadas localmente (teorias desenvolvidas no Brasil); em abordagens didáticas e em materiais didáticos baseados em pesquisa (que recontextualizem adequadamente os achados científicos mais atuais na Ciência da Linguagem e ao mesmo tempo a informem e subsidiem); em propostas analíticas para dar conta da multimodalidade e multiculturalidade dos discursos contemporâneos (metodologias de análise do discurso que nos possibilitem entender o modo como várias modalidades semióticas e vários registros culturais se combinam em textos de gêneros diversos); em análises que buscam explicar a configuração contextual de práticas discursivas situadas (metodologias de análise que nos possibilitem entender o modo como o contexto material, as instituições sociais e o discurso são dialeticamente constituídos/constitutivos).

LETRAMAGNA – Em LA temos diferentes “rotas”, “percursos”, “caminhos” de investigação. Dentre esses, quais os que hoje caracterizam as pesquisas voltadas ao ensino e aprendizagem de língua estrangeira, especificamente o inglês, no Brasil?

Penso que hoje as pesquisas voltadas ao ensino e aprendizagem de língua estrangeira no Brasil se caracterizam por uma preocupação em conectar os planos das práticas sociais e das práticas discursivas. Na minha avaliação, o grande marco referencial hoje na Ciência da Linguagem, não só no Brasil como no mundo, é pensar língua a partir do conceito de gênero discursivo como evento discursivo demarcado nas várias instituições sociais (nos termos da Sociorretórica, por exemplo). Abordagens contemporâneas de pesquisa e ensino de línguas tomam o conceito de gênero discursivo como base para o entendimento de como a língua é constitutiva da vida social nas várias situações que caracterizam o funcionamento de instituições sociais em comunidades específicas. Um exemplo de pesquisa voltada ao ensino e aprendizagem de língua estrangeira, especificamente o inglês, no Brasil é aquela que produziu as diretrizes curriculares do Rio Grande do Sul, “Lições do Rio Grande”. Colegas como Margarete Schlatter e Pedro Garcez, que participaram desse projeto, conseguiram formular um documento que evidencia como a LA vê ou deveria ver o ensino e aprendizagem de língua estrangeira na atualidade. Até onde eu consigo enxergar em meu terreno de atuação, a pesquisa e o ensino de línguas, particularmente o inglês, no Brasil, se baseia na análise crítica do discurso e de gêneros, pois saber línguas é saber analisar discursos, seja no consumo ou na produção de textos, em contextos de situação, de cultura e de gêneros específicos. Para tanto, vejo o ensino de língua inglesa como o processo de inserção ao aluno em práticas sociais e discursivas situadas, em projetos de multiletramentos concretos. Penso que devemos engajar nossos alunos, por exemplo, na elaboração de um blog que fale deles e de suas comunidades em inglês para o mundo (em vez de aprender inglês para falar apenas do Outro), ligando o local e o global, de modo que a aprendizagem de língua inglesa seja um processo educacional rico, que contribua para a constituição identitária desse aluno. Outro projeto de multiletramento importante para a aula de língua inglesa é aquele que encoraja a autoria de nossos alunos, de modo que sejam orientados a criar videoclipes com celulares, combinando semioses múltiplas como música, imagens, texto verbal para produzir um texto que afirme um ponto de vista estético sobre o mundo em língua inglesa para ser postado na internet de modo que esses alunos se engajem no discurso de seu tempo. Evidentemente essas propostas pedagógicas devem ser alicerçadas em pesquisa de base sobre análise e teoria lingüística, envolvendo multimodalidade, multiletramentos e multiculturalidade, ensino e aprendizagem, e formação de professores de línguas.

LETRAMAGNA – Profa, como a senhora vê as pesquisas em LA sobre ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras voltadas ao uso das tecnologias de informação e comunicação?

As pesquisas em LA sobre ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras em associação com o uso das tecnologias de informação e comunicação nos dão uma importante contribuição por explorarem o modo como as práticas sociais da contemporaneidade estão constituídas pelas práticas discursivas no contexto virtual, pelos textos configurados na linguagem em tela (do computador), pelos textos multimodais. O ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras que incorpora o uso das tecnologias de informação e comunicação é vital para que a sala de aula de línguas se coadune com o mundo social concreto, pois hoje a comunicação humana é essencialmente feita por meios tecnológicos. É fundamental que o ensino de línguas promova o desenvolvimento de habilidades e capacidades de análise e uso de recursos multissemióticos e tecnológicos por parte de alunos e professores de modo que desenvolvam multiletramentos e estejam preparados para produzir sentido na complexidade discursiva contemporânea. 

LETRAMAGNA –Quais foram os grandes avanços em LA, no Brasil, nos últimos anos?

Penso em avanços da LA brasileira, nos últimos anos, a partir da inovação e das tecnologias intelectuais presentes em:

·      um pensamento crítico sobre língua em uso como objeto de investigação tão importante quanto aqueles tradicionalmente consagrados  como “ciência”. Exemplos de ações nessa linha de pensamento são os projetos de diferentes regiões do Brasil, que buscam explicar as práticas discursivas em conexão com as condições concretas da experiência humana, como o projeto de Análise Crítica do Discurso em conexão com a pobreza, coordenado no Brasil pela UnB, o projeto de Linguística Sistêmico-Funcional através de diferentes línguas, pela PUCSP; e o projeto de Análise Crítica de Gêneros de popularização da ciência, pela UFSM, apenas para citar alguns;

·      abordagens teóricas inovadoras pensadas localmente, como o pensamento teórico desenvolvido no Brasil, identificado como a “Análise Crítica de Gêneros”, cujos passos iniciais foram dados por José Luiz Meurer e que hoje começa a ser reconhecido no exterior, conforme evidenciou a recente conferência Genre 2012: rethinking genre 20 years later: An international conference on genre studies”, no Canadá;

·      obras de referência e materiais didáticos baseados em pesquisa, produzidas por especialistas brasileiros, para editoras brasileiras que valorizam nosso trabalho, como a Parábola Editorial, apenas para citar uma delas. Essas obras e materiais são voltados para um público brasileiro, mas, por sua relevância, começam a ser valorizados por colegas estrangeiros e começam a ser lidas em português no exterior por colegas falantes de outras línguas.

A meu ver, esses são os grandes avanços da LA brasileira nos últimos anos: deixar de pensar na sociedade brasileira exclusivamente a partir da ótica do Outro e começar a pensar a partir de uma perspectiva teórica que se baseia em verificação de dados de pesquisa desenvolvida no nosso contexto, em reflexão baseada na vivência do contexto brasileiro de modo a conectar o local ao global, deixando que também o local influencie o global.

 

LETRAMAGNA – Profa, a senhora poderia sugerir algumas referências para os leitores conhecerem mais sobre as questões debatidas na entrevista?

Pesquisa em Linguística Aplicada:


MOTTA-ROTH, D. A dinâmica de produção de conhecimento: teoria e dados, pesquisador e pesquisados. Revista Brasileira de Linguística Aplicada (Impresso), Belo Horizonte, MG: UFMG., v. 3, n.1, p. 165-177, 2003.
MOTTA-ROTH, D. De receptador de informação a construtor de conhecimento: O uso de chat no ensino de inglês para formandos de Letras. In: Vera Menezes. (Org.). Interação e aprendizagem em ambiente virtual. Interação e aprendizagem em ambiente virtual. 2aed .Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, v. 1, p. 269-291.
MOTTA-ROTH, D. ; MARCUZZO, P. Um recorte no cenário atual da lingüística aplicada no brasil. In: KLEBER SILVA; MARIA LUISA ORTIZ ALVAREZ. (Org.). Perspectivas de investigação em linguistica aplicada. 1ed Campinas: Pontes, 2008, v. 1, p. 33-52.


Análise Crítica de Gêneros: Pesquisa, Ensino de Línguas e Tecnologias

MOTTA-ROTH, D. O ensino de produção textual com base em atividades sociais e gêneros textuais. Linguagem em (Dis)curso, v. 06, p. 495-517, 2006.
MOTTA-ROTH, D. Análise crítica de gêneros: contribuições para o ensino e a pesquisa de linguagem. DELTA. Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada (PUCSP. Impresso), v. 24, p. 341-383, 2008.
MOTTA-ROTH, D. Para ligar a teoria à prática: roteiro de perguntas para orientar a leitura/análise crítica de gêneros. In: MOTTA-ROTH, D.; CABAÑAS, T.; HENDGES, G.. (Org.). análises de textos e de discursos: Relações entre teorias e práticas. análises de textos e de discursos: Relações entre teorias e práticas. 1ed .Santa Maria: PPGL Editores, 2008, v. 1, p. 243-272.
MOTTA-ROTH, D. The role of context in academic text production and writing pedagogy. Disponível emhttp://wac.colostate.edu/books/genre/chapter16.pdf. In: Charles Bazerman; Adair Bonini; Débora Figueiredo. (Org.). Genre in a Changing World. Genre in a Changing World. 1ed .Fort Collins, Colorado, EUA: The WAC Clearinghouse, 2009, v. 1, p. 317-336.
MOTTA-ROTH, D. Questões de metodologia em análise de gêneros.. In: Acir Mário Karwoski; Beatriz Gaydecka; Karim Siebeneicher Brito. (Org.). Gêneros textuais: Reflexões e ensino. 3a. ed. revista e aumentada.. Gêneros textuais: Reflexões e ensino. 3a. ed. revista e aumentada.. 3/3ed .São Paulo: Parábola editorial, 2011, v. 1, p. 153-173.
MOTTA-ROTH, D. ; HEBERLE, V. M. . O conceito de "estrutura potencial do gênero" de Ruqayia Hasan. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D.. (Org.). Gêneros: teorias, métodos e debates.. Gêneros: teorias, métodos e debates.. 1ed .São Paulo, SP: Parábola Editorial, 2005, v. 1, p. 12-28.
MOTTA-ROTH, D. ; REIS, S. C. DOS ; MARSHALL, D. . O gênero página pessoal e o ensino de produção textual em inglês. In: Júlio César Araújo. (Org.). Internet & ensino: novos gêneros, outros desafios. Internet & ensino: novos gêneros, outros desafios. 1ed .Rio de Janeiro: Lucerna, 2007, v. 1, p. 126-143.


Multiletramentos e Multimodalidade


MOTTA-ROTH, D. Academic literacies in the south: writing practices in a Brazilian university. In: Chris Thaiss; Gerd Bräuer; Paula Carlino; Lisa Ganobcsik-Williams; Aparna Sinha. (Org.). Writing programs worldwide: profiles of academic writing in many places. 1ed .Colorado State University, EUA: The WAC Clearinghouse, 2012, v. 1, p. 105-116.
MOTTA-ROTH, D. ; HENDGES, G. R. Produção textual na universidade. 1. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2010a. v. 1. 165p .
MOTTA-ROTH, D. ; HENDGES, G. R. Explorando modalidades retóricas sob a perspectiva da multimodalidade. Letras (UFSM), v. 20, p. 43-66, 2010b.
MOTTA-ROTH, D. ; NASCIMENTO, F. S. Transitivity in visual grammar: concepts and applications. Linguagem & Ensino (UCPel), v. 12, p. 319-349, 2009.

Além disso, a partir de minha leitura particular de obras dos colegas brasileiros que se identificam como Linguistas Aplicados e de uma rápida busca nos seus currículos Lattes, posso sugerir algumas referências para os leitores conhecerem mais sobre as questões debatidas nesta entrevista:

BARBARA, L. ; MOYANO, E.; MAGALHÃES, C. M.; ALMEIDA, D. B. L. DE ; VIAN JR, O.; GIO. E.; GIODICE, J.; NATALE, L.; STAGNARO, D.; CARICARI DE MORAIS, F. B.; MACEDO DE MACEDO, C. M.; FERNANDES, M. D. Textos e linguagem acadêmica: explorações sistêmico-funcionais em espanhol e português. Campinas e Buenos Aires: Mercado de letras e UNGS, 2011.
CELANI, M. A. A. Reflexões e ações (trans)formadoras no ensino-aprendizagem de inglês. Campinas: Mercado de Letras, 2010.
KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K.S. Gêneros textuais: reflexões e ensino. 4. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

MACHADO, A. R.; LOUSADA, E. G. ; TARDELLI, L. S. A. Planejar gêneros acadêmicos. 3a. ed. São Paulo: Parábola, 2008.

MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. Gêneros - teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

MOITA LOPES, L. P. da. Por uma linguística aplicada INdisciplinar. São Paulo: Parábola, 2011.
PAIVA, V. M. O.; NASCIMENTO, M. do. Sistemas adaptativos complexos: lingua(gem) e aprendizagem. Campinas: Pontes, 2011.

REGISTRO, E. S. R.; ANJOS-SANTOS, L. M.; KADRI, M. S. E.; GAMERO, R.; CRISTOVÃO, V. L. L. Connecting ide@s: tools for teaching English in a contemporary society. Londrina: UEL, 2011.
ROJO, R. H. R. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. 1ª. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

SZUNDY, P. T. C.; ARAÚJO, J. C.; NICOLAIDES, C.; SILVA, K. A. Linguística aplicada e sociedade: ensino e aprendizagem de línguas no contexto brasileiro. Campinas, São Paulo: Pontes Editores, 2011.

VIAN JR., O.; SOUZA, A.A.; ALMEIDA, F. S. D. P. A linguagem da avaliação em língua portuguesa. Estudos sistêmico-funcionais com base no Sistema de Avaliaitivade. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.