Alessandra Del Ré


Professora do Departamento de Lingüística da Universidade Estadual Paulista (UNESP-Araraquara) e do Programa de Pós-Graduação em Lingüística da mesma universidade, na área de Aquisição da Linguagem.


Por Artarxerxes Modesto

LETRA MAGNA - Como podemos definir "Psicolingüística"? Quais os seus campos de atuação, seus domínios?

DEL RÉ - Assim como em outras disciplinas científicas, é comum que autores, em função de seus pontos de vista, delimitem a Psicolingüística de modos diferentes, gerando definições às vezes pouco próximas, que podem dar a impressão de estarem se referindo a questões de naturezas diversas.

Dessa forma, na minha opinião, a Psicolingüística poderia ser definida, nos dias de hoje, como a ciência da linguagem que estuda os processos psicológicos implicados na aquisição e no uso da linguagem. Trata-se de uma área de pesquisas variadas, em que o investigador pode optar entre diferentes possibilidades de recorte. Pode-se estudar: a produção de enunciados, cuja preocupação pode ser, por exemplo, desvendar o modo como o locutor passa da intenção de sentido à emissão de uma seqüência de sons ou de signos escritos; a interpretação de enunciados, cujas indagações giram em torno da maneira pela qual o indivíduo realiza o processamento mental dos sinais acústicos da fala para entender o que ouve; a memorização, ou de que forma a memória armazena palavras, frases, textos; o plurilingüismo, em que se postula a existência de uma linguagem que ultrapassa a variedade das línguas particulares e se procura entender de que forma o indivíduo estoca diferentes línguas na memória, colocando-as em uso no momento em que é solicitado a fazê-lo; a aquisição da linguagem, em que se tenta explicar, entre outras coisas, o fato de as crianças, por volta dos 3 anos, serem capazes de fazer uso – produtivo – de suas línguas; e, ainda, as patologias da linguagem, em que são levantadas questões referentes à dislexia, atrasos de linguagem, afasias etc.


LETRA MAGNA
- Existe um objeto teórico bem definido, delimitado para a área?

DEL RÉ - Como disse há pouco, por permitir diferentes recortes, é difícil delimitar um objeto teórico, mas é possível depreender, partindo-se da eleição de fontes como, por exemplo, Scliar-Cabral (1991) e Kess (1992), algumas questões comumente tratadas pela Psicolingüística. Eu diria que, ao procurar sua autonomia em relação às grandes áreas com as quais a Psicolingüística faz fronteira, a saber, a Lingüística (cujo objeto é a língua) e a Psicologia (cujo objeto é o comportamento humano e as atividades cognitivas da mente), e considerando que suas questões suscitaram a busca de explicações em outras áreas (Epistemologia Genética, Etologia e Psicanálise), ela acabou por voltar seu olhar para a gênese da linguagem (criança), a fim de desvendar de que forma a linguagem é processada na mente humana. Em outras palavras, podemos encontrar na Psicolingüística a relação entre uma dimensão psicológica (cognitiva), lógica e lingüística (fala da criança).

LETRA MAGNA- Como estão as pesquisas em Psicolingüística no Brasil? Qual a tendência, a corrente mais aceita entre os psicolingüistas?

DEL RÉ - Antes de responder a essa questão, há de se fazer uma menção ao fato de hoje haver uma separação entre os grupos que se dedicam à Psicolingüística, propriamente dita, e aos que trabalham com Aquisição da Linguagem. Esta divisão deve-se, sobretudo, aos tipos de questões que passaram a ser colocadas e que acabaram, de certa forma, conduzindo a própria Aquisição da Linguagem a ganhar uma certa autonomia nos últimos anos, originando três subáreas de pesquisa: aquisição de língua materna, aquisição de segunda língua e aquisição da escrita.

Assim, no Brasil, dentro da área da Psicolingüística, pode-se dizer que uma das grandes referências é a Profa.Dra. Leonor Scliar-Cabral (UFSC), embora hoje seja possível citar grupos que vêm crescendo como o GT de Psicolingüística da ANPOLL, entre outros. Na (sub)área de Aquisição da Linguagem, devemos mencionar a grande repercussão dos trabalhos da Profa. Dra. Cláudia de Lemos (UNICAMP) e seu grupo, e o GT da ANPEPP, sob a responsabilidade da Profa Dra. Selma Leitão (UFPE), que trabalha na interface com a Psicologia Cognitiva e a Lingüística.

Atualmente, duas questões ganham destaque no campo da Psicolingüística: a interdisciplinaridade, atestada pelo aumento na produção de trabalhos que estabelecem uma correlação com outros campos; e a realidade psicológica (Kess, 1992) que voltou a ser uma preocupação, mais até do que no momento em que a Psicolingüística se estabeleceu enquanto tal (Osgood & Sebeok, 1954). Decorre sobretudo desse olhar voltado para questões psicológicas o fato de se identificar a necessidade de trazer à tona o aspecto cognitivo no que se refere ao processamento da linguagem. Mas embora, de uma forma ou de outra, todos os trabalhos na área se apóiem em paradigmas cognitivos, pode-se dizer que a Psicolingüística se encontra atualmente em um estado de transição, levando-se em consideração o fato de suas pesquisas adotarem abordagens como a gerativista, cognitivista ou computacional (o processamento da informação pelos computadores passa a servir de modelo para o processamento mental).

Apesar dessa tendência “cognitivista”, por assim dizer, é importante mencionar outras duas fontes de paradigmas para a pesquisa psicolingüística: a primeira, vinda da Psicologia por meio das teorias de Piaget e Vygotsky, e a segunda, da Lingüística Aplicada, em que descobertas da Psicolingüística são aplicadas a diversos campos de atividade humana, como o estudo do bilingüismo, discurso, desenvolvimento da língua materna (L1), ensino de língua estrangeira, leitura, linguagem de sinais e comunicação não-verbal, patologia da fala, entre outros.

LETRA MAGNA - Dentro de uma visão pedagógica, educacional, como o avanço dos estudos em Aquisição de Linguagem podem colaborar no trabalho do professor alfabetizador?

DEL RÉ - São inúmeras as possibilidades de colaboração na área de Educação. A partir do conhecimento do processo de aquisição da linguagem em crianças sem desvios, por exemplo, é possível reconhecer quando uma criança apresenta de fato distúrbios ou atrasos na linguagem (oral e escrita), e, assim, encaminhá-la a outros profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos etc. Por outro lado, ao se estudar o processo de aquisição em crianças com desvios, pode-se conseguir instrumentos teóricos para saber de que forma atuar em sala de aula, desenvolvendo materiais específicos para trabalhar com crianças com síndrome de down etc.

Há dois grupos que eu, particularmente, conheço e que merecem ser citados pela seriedade e pela relevância nessa interface entre as duas áreas. O primeiro, coordenado pela Profa. Dra. Sílvia Dinucci Fernandes (UNESP-Araraquara) e com a colaboração de psicólogos e fonoaudiólogos e educadores, procura, a partir do estudo do processo de aquisição da escrita, (re)inserir na escola crianças rotuladas como "atrasadas" ou com "problemas de aprendizagem". O segundo, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Claudemir Belintane, pretende, com base em um trabalho com a oralidade, com parlendas, cantigas de roda etc., e partindo de pressupostos teóricos da Aquisição da Linguagem e da Psicanálise em que se considera a influência do inconsciente dos textos orais originários da infância, explorar o estudo da entrada da criança na escrita e, assim, fornecer subsídios, sobretudo, para a Educação Infantil.

LETRA MAGNA - Quanto à questão metodológica, qual a abordagem mais aceita ou utilizada atualmente, quanto aos estudos em Aquisição da Linguagem ?

DEL RÉ - Em virtude do caráter interdisciplinar dos estudos que envolvem tanto a Psicolingüística quanto a Aquisição de Linguagem, os pesquisadores nessa área dividem-se entre a dificuldade de estabelecer um consenso quanto ao estabelecimento de uma metodologia – definitiva – de investigação que dê conta de todos os estudos nesse âmbito, e a impossibilidade de se iniciar uma pesquisa dessa natureza sem uma metodologia. Desse modo, foi necessário que se determinassem algumas etapas comuns para todas as pesquisas nessa área: a coleta de dados (longitudinal ou transversal) – seleção dos sujeitos, do material etc. – a análise e/ou interpretação do corpus.

A partir disso, nos estudos recentes de Aquisição da Linguagem, admite-se que a metodologia seja norteada pela teoria eleita pelo investigador. É essa postura teórica que possibilitará ao pesquisador, ao utilizar para a análise dos dados uma fundamentação que se baseia na linha gerativista, cognitivista, discursiva etc., optar, por exemplo, entre um método dedutivo e/ou indutivo, em que se parte de alguns axiomas/hipóteses que se supõe verdadeiros, mas dos quais ainda não se tem provas/dados ou se toma como base dados empíricos, reais e sua hipótese é construída a partir da intuição provável a respeito de algumas relações; entre uma coleta qualitativa e/ou quantitativa, que pressupõe, no primeiro caso, uma realidade dinâmica e estão relacionados a um tipo de observação subjetiva, “naturalista” e não-controlável ou que pressupõe, no segundo caso, uma realidade estável, ligando-se a tarefas e medidas objetivas, controláveis. Adotada a perspectiva que norteará o estudo, cada pesquisador deverá procurar a melhor forma de cercar o seu "objeto", baseando-se em pesquisas anteriormente feitas ou realizando pesquisas "piloto"/"teste" e em função de seu objeto específico - por exemplo, dentro da fala da criança pode-se estudar a questão da aquisição pronominal, do humor nos enunciados, entre outros inúmeros temas.

LETRA MAGNA Quais os tipos mais comuns de distúrbios da linguagem abordados nas pesquisas psicolingüísticas?

DEL RÉ - Dentro das patologias da linguagem, subárea em que se estudam os diferentes problemas no que se refere à faculdade da linguagem, pode-se estudar questões referentes à dislexia (perturbação na aprendizagem da leitura pela dificuldade de reconhecer correspondência entre símbolos gráficos e fonemas, e reproduzir a linguagem escrita), problemas decorrentes de uma patologia mental (autismo, esquizofrenia...), atrasos de linguagem (crianças que manifestam dificuldades no desenvolvimento da linguagem oral), afasias (enfraquecimento ou perda quase total de habilidades lingüísticas, que decorrem de lesões cerebrais) etc.

LETRA MAGNA - Quanto à Aquisição de Segunda Língua, qual a contribuição da Psicolingüística?

DEL RÉ - Desde que alguns pesquisadores voltaram seus olhares para a aquisição da linguagem, foi inevitável o aparecimento de questões referentes não só à oralidade e à escrita, com também concernentes à aquisição de segunda língua (L2), em crianças e adultos, em situação formal (escola) ou informal (família).

Com base nisso, muitas perguntas foram colocadas e para muitas delas ainda não há um consenso por parte dos pesquisadores. Há, por exemplo, os que acreditam na existência de um período crítico para a aquisição a partir do qual seria raro se identificar um processo de aquisição (Pinker, 1994); há os que defendem, por outro lado, que existem fatores de ordem não maturacionais, como fatores emocionais, contextuais etc., que permitiriam ao falante, mesmo depois de ter atingido a puberdade, adquirir em parte a língua alvo; há os que defendem o processo de aquisição mesmo em situações de aprendizagem como a sala de aula, e os que falam apenas em aprendizagem de língua estrangeira para o mesmo fenômeno (LE); há controvérsias com relação ao bilingüismo, pluringüismo, enfim, existem ainda uma série de questões levantadas pela área, ainda não fechadas totalmente, e que interferem diretamente na área da Educação.


LETRA MAGNA - Qual a diferença entre "Aquisição de Língua Materna" e "Aquisição de Segunda Língua"?

DEL RÉ - Basicamente, a diferença está na percepção de mundo que cada língua traz. Aprender uma língua não se resume apenas a saber utilizar seu código, é preciso relacioná-la à cultura na qual ela está inserida, saber suas sutilezas, em que momento se utiliza um registro mais formal, informal etc. Cada língua recorta o mundo à sua maneira, enxerga-o a seu modo, portanto, quando se fala em adquirir uma língua materna não se trata apenas de falar a língua da mãe e/ou do pai, mas vivenciar essa língua. Nesse sentido, é possível adquirir várias "línguas maternas", como no caso de crianças bilingües, cujos pais são de nacionalidades diferentes e falam outras línguas, ou ainda as poliglotas, que convivem em ambientes em que três ou quatro línguas são utilizadas (uma para cada um dos pais, uma terceira para o país em que moram, uma quarta para a babá e assim por diante). Obviamente, é difícil mensurar se a perfórmance da criança vai ser a mesma em todos esses casos, porque, como disse, há outros fatores que interferem nesse processo de aquisição. Em geral usa-se o termo "língua materna" para a língua com a qual a criança tem mais contato, desde bebê, e "segunda língua" para a(s) língua(s) menos utilizada(s).

LETRA MAGNA- Qual a sua área de concentração? Em que projeto está envolvida atualmente?

DEL RÉ - Minha área é a aquisição de língua materna, sobretudo dos componentes interativos e discursivos, em crianças « sem desvios ». Desde 2004, desenvolvo projetos de pesquisa conjuntos com as Profas. Dras. Sílvia D. Fernandes (UNESP-Araraquara), Marie-Thérèse-Vasseur (Université du Maine-CNRS), Chrsitiane Préneron (Paris X-CNRS) e, mais recentemente (2007), comecei a desenvolver uma pesquisa conjunta (Brasil-França), com Aliyah Morgenstern (ENS-LHS, Lyon) e pesquisadores da UNICAMP, UFAL, USP, UFPE, UNIFESP, sobre o posicionamento enunciativo na criança pequena, a partir de diferentes pontos vista (prosódico, morfossintático, discursivo etc.).

LETRA MAGNA - Quais os referenciais teóricos básicos que a senhora indicaria para quem está envolvido ou iniciando seus estudos nesta área?

DEL RÉ - Eu indicaria, numa vertente mais ligada à filosofia da Linguagem, as obras de Ernst Cassirer, (Ensaio sobre o homem, 1994; A filosofia das formas simbólicas, 2001), L. Wittgenstein (Investigações filosóficas, 1984) e M. Merleau-Ponty (Fenomenologia da Percepção, 1999.); dentro da Psicologia da Linguagem, J. Piaget (A linguagem e o pensamento da criança, 1959; A Formação do Símbolo na Criança, 1971) e L. S. Vygotsky (A formação social da mente, 1984; Pensamento e linguagem, 1987); e no âmbito da Lingüística, Bruner (Atos de significação, 1997, Le développement de l’enfant: savoir faire, savoir dire, 1991), Chomsky (Aspects of theory of syntax, 1965), D. I. Slobin (Psicolingüística, 1980). C. de Lemos (os artigos: "Sobre aquisição de linguagem e seu dilema (pecado) original", 1982; " "Interacionismo e aquisição de linguagem", 1986), L. Cabral-Scliar (Introdução à Psicolingüística, 1991).

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