DAVID CRYSTAL


 

David Crystal trabalha em sua casa, em Holyhead, no Norte de Gales, como escritor, editor, professor, e locutor de rádio. Patrono da “Associação Internacional de Professores de Inglês como Língua Estrangeira” (IATEFL), ele se aposentou em tempo integral da universidade, atuando agora somente como  consultor. Crystal foi premiado com a Ordem do Império Britânico (OBE)  em 1995 e tornou-se um “Parceiro da Academia Britânica”,  em 2000.

 

(Por Artarxerxes Modesto)


 

LETRA MAGNA: Qual é a relação entre linguagem,  internet e  sociedade?

DAVID CRYSTAL: A língua não tem vida própria. Ela só existe na boca, ouvidos, mãos, olhos e cérebros das pessoas. A Língua muda porque as pessoas - e, portanto, a sociedade - muda. E quando uma nova tecnologia surge, como a Internet, a linguagem se adapta imediatamente para satisfazer as novas possibilidades comunicativas oferecidas pelo novo meio. Não há nada de novo nisso. Tecnologias anteriores causaram a mesma coisa. A chegada da impressão, do telefone, do telégrafo, e da radiodifusão guiaram a língua para novas direções. Cada evolução foi acompanhada pelos profetas da desgraça, como é óbvio - as pessoas que sentem que a nova tecnologia assinala um desastre lingüístico iminente - e com a internet não tem sido diferente.

LM: A internet está provocando mudanças na estrutura das línguas?

DC: Não muito. Se olharmos para os diferentes níveis da estrutura lingüística, perceberemos que as línguas pós-internet não são muito diferentes das línguas pré-internet. Poucas centenas de novas palavras e frases têm surgido, como blogs, netiqueta, postar, networking; mas algumas centenas de novos itens lexicais são uma gota no oceano quando pensamos neles em relação a bem mais de um milhão de palavras existentes em uma língua como o Inglês. Quase nenhuma nova construção gramatical apareceu, -  apenas usos ocasionais idiossincráticos, como o software que apresenta-nos expressões como um arquivo(s). A ortografia é a área onde vemos a maioria das mudanças estruturais, visto que em que diversas situações, a Internet tolera mais variações de ortografia, capitalização, e pontuação, o que seria considerado atípico na escrita tradicional - e-mails que deixam de lado a pontuação, por exemplo, ou que a usa excessivamente (como quando as pessoas escrevem coisas do tipo Fantástico !!!!!!!). As abreviaturas nas mensagens de texto se enquadram nesta categoria, tal como os emoticons, mas quase nenhuma delas se incorporou à linguagem como um todo. E eu não tenho detectado inovações mesmo na pronúncia, quando as pessoas usam a internet para uma comunicação oralizada.

LM: Como o senhor define Netspeak?

DC: Netspeak é uma expressão que usei para se falar informalmente sobre a comunicação mediada por computador (CMC) na internet. Há algum tempo eu considerei estes dois termos demasiadamente restritos, e prefiro agora os termos Comunicação Eletronicamente Mediada (CEM) ou Comunicação Mediada Digitalmente (CMD). O motivo desta extensão é permitir naturalmente a inclusão de tecnologias que não são computacionais em sentido usual, tais como a comunicação através de celulares ou a gama variada de novos dispositivos que falam com você - como os sistemas de navegação por satélite - ou respondem à sua voz (como nos telefones e máquinas de lavar ativados por voz).

LM: Qual é a principal característica da Netspeak?

DC: Uma gama de variedades tecnologicamente motivadas (ou estilos), que têm aumentado a riqueza expressiva das línguas. Cada situação da internet - e-mail, bate-papo, interação nos mundos virtuais, a rede em si, mensagens de texto, mensagens instantâneas, blogs, os sites de redes sociais como o Facebook e o Twitter, e assim por diante - tem um caráter estilístico diferente. A extensão da frase varia muito, por exemplo, e há considerável variação nos tipos de estrutura das frases utilizadas, bem como vocabulários e ortografia  distintos, como por exemplo, o uso de abreviações e emoticons.

LM: Qual é a relação entre a conversação face-a-face e a Netspeak?

DC: Existe uma diferença fundamental. A conversação face-a-face permite uma troca simultânea. Pessoas ouvem umas às outras, e trocam olhares entre si, e as reações que se desencadeiam influenciam a forma como o falante se comporta com o ouvinte. Feedback simultâneo não é possível em situações de internet. Ao enviar um e-mail não é possível receber feedback simultâneo pela razão óbvia de que o destinatário não tem conhecimento de sua existência até que seja enviado. Mesmo as mensagens instantâneas não são “instantâneas”, pois as pessoas não podem reagir no mesmo momento.  O mais próximo que se pode chegar ao feedback simultâneo pode ser obtido em uma interação via  vídeochat no Skype ou iChat, onde as pessoas podem ver seu(s) destinatário (s), mas até aqui os efeitos da defasagem comunicativa (em que uma mensagem enviada para a outra pessoa está atrasado pela tecnologia de roteamento) significa que há interferência na freqüência de tomada de turno entre os participantes.

LM: Como a Netspeak se relaciona aos recentes desenvolvimentos da Linguistica?

DC: De várias maneiras. Em primeiro lugar, está proporcionando à Lingüística uma quantidade de dados sem precedentes. A internet é o maior corpus lingüístico que poderia existir,  e uma grande parte da informação tem o registro de quando foram produzidas, abrindo possibilidades excitantes para o estudo da mudança lingüística. Em segundo lugar, está tornando acessível variedades e usos lingüísticos  que eram muito difíceis de se obter. Eu vivo no Reino Unido. Há alguns anos atrás, se eu quisesse amostras de dados atualizadas do, digamos, inglês sul-africano, eu teria que ir para a África do Sul. Agora eu posso me valer de inúmeras fontes, faladas e escritas, online. Em terceiro lugar, está dando uma nova oportunidade de vida às línguas ameaçadas. Uma língua falada por poucas pessoas anteriormente tinha grande dificuldade em atingir um público maior e marcar presença utilizando meios tradicionais (imprensa, rádio, etc.). Agora, levando-se em conta que a comunidade de fala é online, é relativamente fácil apresentar essa língua e desenvolver uma comunidade virtual de fala – e muitas línguas ameaçadas podem ser vistas na internet agora.

LM: Por que, em sua opinião, há tantas línguas ameaçadas de desaparecer?

DC: É uma combinação de três fatores, que vieram juntos com grande vigor nos últimos anos. Muitas comunidades têm sido ameaçadas por causa de desastres físicos, tais como maremotos, fome, e AIDS. Continuamos a nos deparar com antagonismos raciais contra as comunidades minoritárias (e, portanto, as suas línguas) em várias partes do mundo. E as forças da globalização continuarão a ser extremamente fortes, o que tornará cada vez mais  difícil para as pequenas comunidades  manterem a sua identidade (e língua é o principal índice de identidade). Estima-se que a cada duas semanas, em média, uma língua morre, em algum lugar no mundo, nos últimos tempos.

LM: Existe relação entre o desaparecimento de línguas minoritárias e o fato de ser o Inglês uma língua cada vez mais globalizada?

DC: O Inglês tem sido uma alternativa escolhida em várias partes do mundo, tais como a Austrália e América do Norte, e como resultado, os falantes de muitas línguas minoritárias deixaram de utilizá-las, vendo no Inglês uma forma de proporcionar uma melhor oportunidade de obter de poder e ascensão sua nova sociedade. Mas não é só o Inglês. O Inglês não teve nada a ver com o desaparecimento das línguas indígenas do Sul e da América Central, onde o Espanhol e Português, foram as alternativas. O Inglês também não pode explicar o desaparecimento das línguas em muitas outras partes do mundo, onde línguas como russo, chinês e árabe têm sido os fatores dominantes.

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