BETH BRAIT

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP


Por Prof. Dr. Rodrigo Acosta Pereira

Professora, a revista desse semestre tem como tema “Linguagem e interação”. Haja vista que um dos caminhos mais profícuos em Linguística e Linguística Aplicada sobre esse tema tem sido os escritos do Círculo de Bakhtin, como a senhora poderia explicar o conceito de interação para o Círculo?

No conjunto dos escritos do Círculo, o conceito de interação é, sem dúvida, um dos mais produtivos e aparece em diferentes obras, quer as assinadas somente por Bakhtin, quer as assinadas Pavel Medviedev ou Valentin Voloshinov. Como para os demais conceitos e categorias que caracterizam o pensamento bakhtiniano, o que está em jogo nessa perspectiva de interação é a linguagem em uso, são os processos de construção do sentido e de seus efeitos, são as formas de enfrentamento entre sujeitos sociais, históricos, discursivos e as formas do dizer e do ser no mundo. A ideia central é a de que os sentidos se dão na interação social, considerando que a língua não é um organismo autônomo, que nenhuma palavra é a primeira ou a última, que os discursos existem e têm sua identidade num permanente enfrentamento. Essa concepção inclui, ao mesmo tempo, as materialidades verbais, visuais, verbo-visuais características de uma dada atividade humana e suas combinatórias possíveis, vistas da perspectiva dos contextos mais amplos, os quais são indiciados pelos traços de situações particulares. A ideia de interlocução/interação aponta tanto para as peculiaridades dos interlocutores, no sentido dos parceiros de um diálogo, como para os diferentes discursos que atravessam e constituem qualquer interlocução, qualquer projeto comunicativo, expressivo.


Se pensarmos em dialogismo como conceito guarda-chuva que engloba todos os demais implicados no pensamento bakhtiniano, a interação é um de seus eixos, impedindo que ele seja entendido somente como diálogo, enquanto estrutura, enquanto harmonia. Interação implica tensão, discursos em confronto e sujeitos em movimentos históricos, sociais, culturais, além da situação imediata de interlocução. Meu primeiro trabalho ligado a esse conceito intitula-se “O processo interacional” (In: Preti, D. (org.) Análise de textos orais. São Paulo: FFLCH/USP, 1993, p.189-214). Estávamos na década de 1990 e escolhi analisar um diálogo pertencente ao material do Projeto NURC/SP (Projeto da Norma Linguística Culta da Cidade de São Paulo), do qual era membro, e também o conto “Famigerado”, de João Guimarães Rosa (Primeiras estórias, 5ed., Rio: José Olympio, p. 9-13). Considerei, naquele momento, que para tratar das especificidades da interação, os dois textos, um artístico e outro não, me ajudariam a demonstrar que a interação é um processo ao mesmo tempo constante, constitutivo da linguagem, e altamente complexo, implicando o embate de valores, crenças, posicionamentos sociais, culturais, individuais. Para demonstrar algumas características desse rico processo, associei, pela primeira vez, os fundamentos teórico-metodológicos da Análise da Conversação ao conceito de interação apresentado por Bakhtin/Voloshinov em Marxismo e filosofia da linguagem, mais especificamente no capítulo 8: “A interação verbal” (MFL, São Paulo: Hucitec, 1997, p. 110-127). Se nesse trabalho, Bakhtin e o Círculo ainda entram timidamente, em outro, intitulado “Interação, gênero e estilo” (In: Preti, D. (org.) Interação na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas, 2002, p. 125-157), procedo a uma revisão do conceito de interação estabelecido pelo pensamento bakhtiniano, bem como a maneira como a gênese desse conceito se articula com a discussão a respeito de estilo e gêneros discursivos. E aí, basicamente, recorro a três textos: O discurso na vida e discurso na poesia (1926), Marxismo e filosofia da linguagem (1929) e “O problema dos gêneros discursivos” (1979). Os dois primeiros, assinados Bakhtin/Voloshinov, já na década de vinte do século XX, inauguraram uma reflexão sobre o discurso, tanto na vida quanto na arte, apontando de maneira contundente para a importância de um olhar mais atento para o fenômeno da interação, considerado como aspecto constitutivo da linguagem e, necessariamente, como fator a ser priorizado na análise e descrição de todas as formas de discurso e não apenas no diálogo enquanto estrutura de texto. Esses trabalhos ajudam a compreender a articulação necessária entre interação e dialogismo, no sentido de que ambos dizem respeito ao permanente embate, raramente simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram a multiplicidade de interações características de uma comunidade, de uma cultura, de uma sociedade e que se presentificam em situações do dia-a-dia, na multiplicidade de atividades humanas, em diferentes esferas e formas de constituição da linguagem em uso.

Neste momento estamos em interação, no sentido bakhtiniano do termo. Não apenas você e eu, o entrevistador e a entrevistada e os discurso que constituíram nosso projeto de linguagem, mas, estando o texto escrito (e há interação na escrita, não apenas na oralidade), participa dessa interação o leitor, a quem nós dois visamos ao escolher o tema, a maneira de tratar esse tema. Isso não significa harmonia. Muito pelo contrário: cada leitor trará, para a produção de sentidos e efeitos de sentido desta interação, novos aspectos, o que torna a situação/texto não fechada, não concluída, atraindo discursos, valores em confronto, conhecimentos, posicionamentos imprevisíveis.


Professora, muitos pesquisadores, interlocutores atuais do Círculo de Bakhtin, têm procurado delinear fronteiras epistemológicas para as pesquisas de cunho dialógico. Frente essa questão, poderíamos entender que, mesmo sem intenção explícita, estamos atualmente falando em uma análise dialógica do discurso, quando nossas pesquisas baseiam-se nos escritos do Círculo? E assim estaríamos nos diferenciando das abordagens francófona e anglo-saxã?


Sua pergunta, de certa maneira já traz a resposta. De fato, a leitura do conjunto da obra do Círculo em momento algum oferece um trecho isolado em que pudéssemos surpreender a expressão análise dialógica do discurso ou mesmo um capítulo ou um livro que pudesse ser considerado um manual de conceitos e maneiras de utilização. Nenhum dos pensadores do chamado Círculo, individualmente ou em grupo, quis construir uma Análise do Discurso no sentido que podemos atribuir aos movimentos que criaram a AD francesa, a AD anglo-saxã. Como já explicitei em vários trabalhos, a expressão Análise Dialógica do Discurso, já condensada na sigla ADD, nasce no Brasil e é trabalhada e assumida como tal pelos estudos bakhtinianos brasileiros. Salvo engano, a origem da expressão está nos trabalhos de Carlos Alberto Faraco, sem dúvida o primeiro estudioso de Bakhtin a cunhar a expressão análise dialógica, hoje disseminada em trabalhos das mais variadas estirpes.


O que permite a afirmação de uma análise dialógica é, em primeiro lugar, a possibilidade, hoje, da leitura do conjunto das obras do Círculo que, mesmo apresentando especificidades em relação aos vários pensadores e seus textos, oferece, num certo sentido, um eixo em relação à maneira de conceber e analisar a linguagem. Bakhtin, Voloshinov e Medviedev, por exemplo, não tem o mesmo estilo, diferenciando-se como intelectuais que são. Entretanto, nos três há elementos para recuperarmos um conjunto de procedimentos analíticos, um arcabouço teórico que, embora não formando um corpo acabado de conceitos e formas de aplicação, está articulado enquanto conjunto, enquanto postura diante da linguagem e das formas de enfrenta-la.
Se tomarmos, por exemplo, uma das obras mais lidas do Círculo - Marxismo e filosofia da linguagem -, veremos que além de vários conceitos importantes para a análise da linguagem em uso, aí incluído o de interação, o autor sugere uma ordem metodológica para o estudo da língua, contrariando os que dizem que nos escritos bakhtinianos não encontramos conceitos e/ou sugestões metodológicas. Segundo ele, o procedimento deve seguir três momentos, considerando: 1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza; 2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias de atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal; 3. A partir daí, exame das formas da língua na sua interpretação linguística habitual (Bakhtin/Voloshinov, MFL, 1997, p. 124).

Outro momento que pode nos ajudar a perceber a sugestão de análise dialógica, incluindo metodologia e objeto, encontra-se na obra Problemas da poética de Dostoiévski, quando Bakhtin sugere a criação de uma nova disciplina: a metalinguística ou translinguística, à qual Paulo Bezerra, tradutor e estudioso de Bakhtin, se refere da seguinte maneira: “[...] no livro sobre Dostoiévski a metalinguística já se esboça como método de análise do discurso e hipótese de uma futura síntese da filologia com a filosofia, que Bakhtin imaginava como uma disciplina humana nova e específica capaz de reunir em contiguidade a linguística, a filosofia, a antropologia e a teoria da literatura. [grifos meus] (Bezerra, P. “Prefácio à segunda edição brasileira” (BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. 3ª. ed., Rio de Janeiro: forense Universitária, 2008, p. X.).

Poderíamos, se continuássemos a observar os trabalhos que compõem o pensamento bakhtiniano, escritos em diferentes épocas, com diferentes assinaturas, mas, em sua maioria, voltados para uma reflexão sobre a linguagem, literária ou não, definir, em linhas gerais, análise dialógica do discurso como sendo: a indissolúvel relação existente entre língua, linguagens, história e sujeitos. Destaco, como já fiz em outros trabalhos, alguns aspectos que marcam e singularizam essa análise/teoria dialógica do discurso: a) o reconhecimento da multiplicidade de discursos que constituem um texto ou um conjunto de textos e que modificam, alteram ou subvertem suas relações, por força da mudança de esfera de circulação e recepção; b) o discurso, definido como relações dialógicas, tomado como objeto de uma disciplina interdisciplinar, denominada por Bakhtin metalinguística ou translinguística, e que hoje pode ser tomada como embrião da análise/teoria dialógica do discurso; c) o pressuposto teórico-metodológico de que as relações dialógicas se estabelecem a partir de ponto de vista assumido por um sujeito histórico, social, cultural; d) as consequências teórico-metodológicas de que as relações dialógicas não são dadas, não estando, portanto, jamais prontas e acabadas num determinado objeto de pesquisa, mas sempre estabelecidas a partir de um ponto de vista moldado por valores, tensões, fronteiras; e) o papel das linguagens e dos sujeitos na construção dos sentidos; e) a concepção de texto como assinatura de um sujeito, individual ou coletivo, que mobiliza discursos históricos, sociais e culturais para constituí-lo e constituir-se.

A contribuição do pensamento bakhtiniano para o que hoje se denomina análise dialógica do discurso não implica, portanto, uma proposta fechada e linearmente organizada. Constitui, de fato, um corpo de conceitos, noções e categorias que especificam a postura dialógica diante de textos e discursos, o embate de valores e tensões que constituem a linguagem e, consequentemente, o ser humano. Além disso, a pertinência de uma perspectiva dialógica se dá pela análise das especificidades discursivas constitutivas de situações em que a linguagem e determinadas atividades se interpenetram e se interdefinem, sendo o caso, por exemplo, dos contextos de trabalho, dos contextos escolares, de esferas de produção como a jornalística, a publicitária, a científica e, evidentemente, a literária, a poética, a artística de forma geral. Nesse sentido, a forma de enfrentamento de textos e discursos da ADD diferencia-se das demais ADs e das semióticas em geral, como muitos trabalhos vêm demonstrando, destacando-se, para tanto, os fundamentos filosóficos que constituem o pensamento bakhtiniano e que contribuem para suas singularidades, para sua identidade diferenciada.

Professoraa, atualmente, principalmente nas pesquisas atuais em Linguística Aplicada, diferentes pesquisadores têm procurado entender a constituição e o funcionamento dos gêneros do discurso e muitos têm buscado nos estudos do Círculo a sua base teórica. O que a senhora acha sobre as pesquisas atuais sobre os gêneros do discurso baseadas na teoria dialógica?


A questão dos gêneros no Brasil assume uma dimensão muito diferente de outros países, especialmente por fazer parte dos documentos oficiais de ensino. Se por um lado os gêneros são fundamentais reconhecer especificidades da linguagem em uso e para pensar as formas de reconhecê-las e ensiná-las, por outro, virou quase que uma bandeira que aglomera diferentes teorias não reconhecendo diferenças entre os teóricos, as diferentes teorias, comprometendo, em certa medida, o real alcance desse arcabouço para o ensino da escrita e da leitura na escola.

No conjunto dos trabalhos do Círculo, por exemplo, ao contrário do que muita gente ainda imagina, a questão dos gêneros não está presente somente no clássico “Os gêneros do discurso”, de 1951-1953, divulgado na coletânea póstuma Estética da criação verbal (1979). Outros trabalhos do Círculo contribuem para a concepção de gênero fundada na ideia de que a linguagem se materializa por meio de enunciados concretos, articulando “interior” e “exterior”, viabilizando a noção de sujeito, histórica e socialmente situado. Em Medviedev, por exemplo, na obra O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica, que é de 1928 e foi recentemente traduzida no Brasil por Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo (São Paulo: Contexto, 2012), há um capítulo que trata da questão dos gêneros de maneira fundamental, importante para todos que se interessam pelo assunto. Nesse capítulo, a discussão se encaminha de maneira a tomarmos consciência de que a análise do gênero não pode ser unicamente estrutural, formalista, visando somente a forma de composição, um dos aspectos sublinhados por Bakhtin, entre vários outros, e que em geral as pessoas tomam como se fosse o único a ser observado, analisado, ensinado. Dentre as muitas coisas importantes que recomendam a leitura desse trabalho, o autor afirma a relação do gênero com a cultura, a coletividade, com a sociedade, com a maneira de conceber, expressar e compreender a realidade. Ele diz: “[...] a realidade do gênero é a realidade social de sua realização no processo da comunicação social. Dessa forma o gênero é um conjunto de meios de orientação coletiva dentro da realidade, dirigido para seu acabamento. Essa orientação é capaz de compreender novos aspectos da realidade. A compreensão da realidade desenvolve-se e origina-se no processo da comunicação social ideológica” (Medviédev, 2012, p. 200). Também em Marxismo e filosofia da linguagem e Problemas da poética de Dostoiévski, para citar apenas mais duas obras, vamos ver que a questão do gênero está posta, contribuindo para que esse conceito, como os demais, seja recuperado no conjunto do pensamento e não unicamente em uma obra. Em artigo recente, publicado no periódico Alfa: Revista de Linguística (vol.56 no.2 São Paulo jul./dez. 2012) publiquei um artigo, em co-autoria com Maria Helena Cruz Pistori, no qual a questão do gênero na obra do Círculo é discutida. Um dos exemplos dado é o do editorial, aqui resumido da seguinte maneira: “Ao estudar, por exemplo, o editorial, com o objetivo de ensinar quais são as características desse gênero, é possível considerar somente sua forma composicional (sua forma dissertativa predominante), ou trabalhar de forma a dar ao aluno condições de compreender o gênero, dominá-lo e produzi-lo como sujeito/autor, consciente das condições de produção, circulação e recepção de um editorial.

Na segunda opção, torna-se obrigatório: a) localizar editorial no jornal em que foi publicado (veículo, suporte, tempo, espaço, etc.) e não apenas recortá-lo e tirá-lo de sua situação de produção, circulação e recepção; b) especificar a seção e o caderno em que ele aparece (tratando-se de imprensa escrita), comparando com outros jornais que também têm editoriais, levando o aluno a perceber que esse não é um texto autônomo, mas faz parte dos gêneros jornalísticos e/ou opinativos que caracterizam a imprensa contemporânea; c) levar o aluno a observar os demais textos que participam da página em que o editorial se encontra, estabelecendo as relações existentes entre eles; d) levar o aluno, ainda, a observar o conjunto das matérias publicadas no jornal, naquele dia e em anteriores/posteriores, e a maneira como o editorial se relaciona com elas, nesse e nos jornais imediatamente anteriores/posteriores; e) chamar a atenção do aluno para ao menos três outras coisas: 1) o jornal (escrito) tem um projeto gráfico no qual o editorial ocupa um espaço específico, cuja função é situar o leitor e destacar seu papel, enquanto gênero diante de outras matérias; 2) como todos os demais gêneros, o editorial possibilita a compreensão de um dado aspecto da vida, de forma diferenciada de outros gêneros, mas tendo em comum com eles o fato de refletir e refratar um acontecimento, um evento; e 3) o editorial, enquanto gênero, insere-se na tradição dos gêneros jornalísticos opinativos, marcada, portanto, por um estilo do gênero, que é mais amplo que o estilo do jornal e do jornalista que “assina” o texto. Para esse refinamento final, o texto estudado, também em sua dimensão interna (forma composicional, estilo etc.), tem de ser comparado a outros editoriais e às posições aí implicadas. E aí o aluno saberá que, para construir um editorial, terá de considerar muito mais coisas (veículo, público, suporte, destinatários, posição diante de um fato, articulada à posição do jornal, etc.) que para a construção de um texto dissertativo opinativo ideal, deslocado de acontecimentos, tempo, espaço, coerções comunicativas. Terá de ser sujeito de seu discurso, articulado com as coerções do jornal/veículo/suporte em que seu editorial se insere” (Brait & Pistori, ALFA, 2012, p. 371-401).

Professora, gostaríamos que a senhora falasse um pouco sobre o que tem pesquisado em 2012 e o que projeta, em termos de pesquisa, para 2013:


Há alguns anos venho trabalhando as contribuições do Círculo para a análise dos enunciados verbo-visuais, tendo apresentado vários trabalhos em congressos, publicado alguns textos no Brasil e fora dele e orientado mestrado e doutorados. Não se trata de dirigir a ADD para a análise de imagens, como faz a Estética, as diferentes Semióticas, a Semiologia, dentre outras tendências de construção do conhecimento. Trata-se de descrever, analisar e interpretar, com o mesmo rigor que utilizamos o instrumental teórico e metodológico para a análise da linguagem unicamente verbal, um tipo de enunciado muito característico de nossos dias e que aparece na rua, na publicidade, no jornal impresso e televisivo, nas artes, nos livros didáticos etc. e cuja característica é a dimensão em que tanto a linguagem verbal como a visual desempenham papel constitutivo na produção de sentidos, de efeitos de sentido, não podendo ser separadas, sob pena de amputarmos uma parte do plano de expressão e, consequentemente, da compreensão das formas de produção de sentido desse enunciado.

É importante explicitar, como já fiz em vários trabalhos, que as sugestões teórico-metodológicas que sustentam essa perspectiva vêm da compreensão de que os estudos de Bakhtin e do Círculo constituem contribuições para uma teoria da linguagem em geral, e não somente para uma teoria da linguagem verbal, quer oral ou escrita. Em alguns trabalhos essa amplitude é claramente nomeada, como acontece, para citar alguns, em “O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas – Uma experiência de análise filosófica”, ensaio que faz parte dos apontamentos datados de 1959-1961, publicado na coletânea Estética da criação verbal (BAKHTIN, 2003, p. 307-335) e seu diálogo com outros ensaios no que se refere às sugestões sobre o visual, de forma especial, mas não exclusiva, em o “O autor e a personagem na atividade estética” (BAKHTIN, 2003, p. 3-192), mais especificamente no capítulo II, intitulado “A forma espacial da personagem”, em que Bakhtin, dentre outras coisas fundamentais para análise da linguagem, trata da questão do excedente de visão, da imagem, do retrato, do autorretrato visual e verbal. Até mesmo a fotografia ganha uma breve referência.

Para dar um exemplo clássico: não podemos analisar uma história em quadrinhos só com a fala das personagens ignorando a interação dessas falas com as imagens, uma vez que é essa articulação que atua na produção de sentidos. Essa é uma de minhas pesquisas no momento, pois ancho que não apenas isso esclarece as diferenças das contribuições do Círculo em relação a outras abordagens, como auxilia o professor no trabalho com os alunos e todos nós na observação e crítica da sociedade em que vivemos.

Professora, ao final, gostaríamos que a senhora sugerisse aos nossos leitores referências para aqueles que desejam saber mais sobre os escritos do Círculo de Bakhtin:

Acho que ao longo da entrevista já mencionei várias obras. Gostaria de insistir no fato de que é muito importante que os leitores leiam as fontes, os trabalhos do Círculo, que atualmente tem muito boas traduções no Brasil. E que nós, os comentadores, os estudiosos, sejamos suportes: nunca a única leitura.


BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. 4. ed. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, M. Questões de estética e de literatura – A teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernardini et al. São Paulo: Martins Fontes. 1990, p.71-210.
BAKHTIN, M. M. (VOLOCHÍNOV, V. N.). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 13ª ed. Trad. Michel Lahud e Yara F. Vieira. São Paulo: HUCITEC, 2009 [1929].
BAKHTIN, M/ VOLOSHINOV, V. N. Discurso na vida e discurso na arte. Tradução de Cristóvão Tezza para fins didáticos da versão em inglês de VOLOSHINOV, V. N. Discourse in life and discourse in art (concerning sociological poetics). In: _______. Freudianism. A marxist critique. Trad. do russo de I. R. Titunik. New York Academic Press, 1976
BRAIT, B. Polifonia arquitetada pela citação visual e verbo-visual. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, v. 5, p. 183-196, 2011a.
BRAIT, B. (org.) Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009.
BRAIT, B. (org.) Bakhtin e o Círculo. São Paulo: Contexto, 2009.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem e diálogo: as ideias do Círculo de Bakhtin. São Paulo: Parábola, 2009.

 

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