ALDO BIZZOCCHI

Desde pequeno, Aldo Luiz Bizzocchi demonstrou pendor para línguas e, já na adolescência, aprendeu autodidaticamente inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Aos dezenove anos, ingressou no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde, dois anos mais tarde, foi convidado a estagiar no North-American Institute of New Graduates por ter se colocado entre os cinco melhores alunos do Instituto. Paralelamente, fez estágio de iniciação científica em sismologia no Instituto Astronômico e Geofísico e mais tarde foi curador da coleção de fósseis do Instituto de Geociências, ambos da Universidade de São Paulo. Mas nessa época já estava decidido a seguir sua verdadeira vocação, a lingüística. Esse contato com as ciências naturais, no entanto, iria influenciar profundamente o seu pensamento e a sua visão de mundo desde então.

Por Artarxerxes Modesto


 

1 - Fale um pouco sobre sua vida. Origens, anseios, conquistas, vida acadêmica…

Com seis anos, eu já conhecia as letras do alfabeto e falava várias palavras em inglês. Na adolescência, comecei a estudar vários idiomas como autodidata. O conhecimento de um idioma auxiliava no conhecimento de outro e assim fui me interessando mais ainda pelo assunto. Quando ouvia alguém falar numa língua estrangeira, ficava prestando atenção na pronúncia e procurava imitá-la. Com isso, a minha pronúncia já foi elogiada até por falantes nativos. Mas, apesar da minha evidente vocação para línguas, eu fiquei bastante impressionado pelas aulas de matemática e física do cursinho. Acabei prestando vestibular para matemática na USP e entrei. Um ano depois, me transferi para o segundo ano do curso de física. Nessa ocasião, fiquei entre os cinco melhores alunos do Instituto de Física da USP e, por isso, fui convidado a estagiar no North-American Institute for New Graduates, de Nova York. Mas eu já estava sentindo que o meu negócio mesmo era o estudo de línguas: recusei o convite, tranquei a matrícula na física e prestei vestibular novamente na USP, desta vez para lingüística. Peguei o oitavo lugar na classificação da Fuvest para a área de Letras (o que deixou claro para mim que desta vez estava fazendo a coisa certa). Depois de me formar, entrei no mestrado em lingüística na mesma instituição e, por ocasião da minha qualificação, fui promovido ao doutorado mesmo sem ter defendido o mestrado. Me doutorei com a nota máxima (dez com distinção e louvor), e a tese foi publicada pela Editora Annablume com o título Léxico e Ideologia na Europa Ocidental. A partir daí, fui professor de lingüística, língua portuguesa e comunicação em vários cursos de graduação. Também fui professor de inglês em escolas de línguas, fui docente e vice-coordenador do programa de mestrado em comunicação da Universidade Paulista e docente do mestrado em comunicação da Fundação Cásper Líbero.

2 - Percebe-se de longe que você é um apaixonado pela ciência. Conte-nos um pouco de suas viagens pelo mundo das ciências.

Por um lado, eu já era um lingüista avant la lettre desde a adolescência. Por isso, posso dizer que o meu interesse e o meu método de aprendizado de línguas sempre foram científicos. Por outro lado, as ciências exatas despertaram o meu fascínio justamente por explicarem fenômenos tão complexos da natureza a partir de leis simples e gerais. Ao mesmo tempo, eu pude perceber que a estrutura e o funcionamento das línguas obedecem igualmente a leis gerais e passíveis de um tratamento "matemático". Isso distingue bastante a lingüística de ciências puramente especulativas, como a história e a filosofia, por exemplo. Além disso, eu, que sou um ávido consumidor de livros e palestras de divulgação científica, notei que existe uma grande ignorância da opinião pública a respeito da ciência em geral e das ciências humanas em particular. Esse fato traz uma série de conseqüências, desde a fixação no imaginário popular de uma visão estereotipada dos cientistas como pessoas excêntricas que estudam questões bizarras ou então sujeitos inescrupulosos que vendem seu conhecimento a grandes empresas multinacionais, passando pelo crescimento de seitas místicas e fundamentalistas que exploram a ignorância e a boa-fé dos incautos, chegando até a questão importantíssima do exercício da democracia, em que o conhecimento de problemas complexos e a posse de informações corretas é fundamental para a tomada de decisões que afetam toda a sociedade.

3 - Com relação às suas obras, qual você considera o marco inicial de sua linha de pensamento? Fale um pouco sobre ela.

Como me considero um pesquisador versátil, tenho interesse por diversas áreas dentro da lingüística. Embora a minha especialidade seja a lingüística histórica, também desenvolvo pesquisas em fonologia, estudo contrastivo de línguas, semântica cognitiva, semiótica da cultura, etc. Na área da lingüística histórica, particularmente da etimologia das palavras, acho que o marco inicial foi a minha tese de doutorado, na qual dei um enfoque inovador à questão da criação e renovação do léxico das línguas européias com base tanto na influência das línguas clássicas (grego e latim) quanto de uma língua vulgar sobre outra. Toda a análise que faço se apóia nas dicotomias clássico x vulgar e nacional x estrangeiro. O resultado foi a redefinição em termos mais rigorosos de vários conceitos da lingüística diacrônica, da filologia e da etimologia, bem como a proposição de outros, que não existiam, além da possibilidade de estudar a ideologia subjacente ao léxico de uma língua por meio da análise estatística. Já no âmbito da cultura, o marco inicial do meu pensamento está registrado num artigo publicado no Brasil em 1996 e depois republicado em inglês numa revista internacional, que deu origem ao meu livro Anatomia da Cultura.

4 - Sua formação em física influenciou seu pensamento na área da semiótica da linguagem? De que forma?

Como eu já mencionei anteriormente, a linguagem humana, seja ela verbal ou não-verbal, é passível de estudo por um método semelhante ao das ciências naturais graças à existência de leis gerais que permitem inclusive fazer predições. Isso porque, como hoje já se sabe, a aptidão semiótica do ser humano é de natureza biológica. Assim, qualquer língua natural e, por extensão, qualquer sistema semiótico estão condicionados por essas leis universais para funcionar. Isso tem feito com que o diálogo entre lingüistas e neurocientistas venha se ampliando de forma bastante produtiva para ambas as partes nos últimos anos. É bastante instrutivo também notar a semelhança de método entre a lingüística histórica e a paleontologia na reconstrução de um passado evolutivo, por exemplo, ou entre a semântica hiperprofunda e a química ou a genética (por exemplo, a combinação dos semas na formação dos sememas obedece a uma lógica bem parecida com a da combinação dos átomos nas moléculas ou dos genes no genoma).

5 - Qual a sua obra mais importante? Fale um pouco sobre ela.

Embora eu já tenha publicado vários artigos que considero importantes em revistas especializadas, acho que dei um salto qualitativo no meu trabalho com a publicação do meu livro mais recente, Anatomia da Cultura, no qual eu proponho uma teoria totalmente nova sobre a cultura, permitindo a compreensão de fatos que até agora só têm sido explicados de forma intuitiva e não-científica. Além disso, esse livro marca o início de uma nova fase da minha carreira, em que eu estou mais voltado ao público em geral do que somente ao leitor especializado. A idéia central da obra é a seguinte: quando se fala em cultura, pensa-se simultaneamente em dois conceitos, a cultura num sentido sociológico e antropológico, como o conjunto de tudo o que o ser humano cria ou transforma, bem como tudo o que nele não é exclusivamente produto do instinto biológico, e a cultura num sentido mais estrito, como um conjunto de práticas simbólicas de caráter mais "espiritual" do que prático, que é exatamente a cultura tal como enfocada pelos cadernos de cultura dos jornais, pelo Ministério da Cultura, e assim por diante. Por meio da teoria semiótica, eu procuro mostrar quais são essas práticas, por que elas são chamadas de culturais e, portanto, no que elas diferem das demais práticas sociais humanas. Eu demonstro que o princípio fundador de toda a cultura é a dualidade necessidade x prazer.

6 - Está envolvido em algum projeto no momento?

Sim, estou retomando o tema do meu primeiro livro, Léxico e Ideologia, sobre a origem e a transformação das palavras nas línguas, só que desta vez ampliando o tema, que antes se restringia às línguas européias, e escrevendo como um livro de divulgação científica, em que eu apresento os conhecimentos científicos numa linguagem acessível ao público leigo e procuro narrar a trajetória da minha pesquisa, do porquê da escolha do tema até os resultados finais, de modo a cativar o leitor através da narrativa dos aspectos humanos e pessoais dessa pesquisa - dificuldades técnicas, ansiedades, inseguranças -, que não foram expostos no primeiro livro, uma vez que se tratava de uma publicação dirigida a especialistas.
Também estou empenhado em intensificar a minha atividade como conferencista e divulgador das ciências da linguagem ao público em geral e, por sinal, pretendo, num futuro próximo, criar um instituto destinado a essa finalidade.

 

7 - Segundo o seu ponto de vista, qual o futuro da Língua Portuguesa no Brasil?

A meu ver, a língua portuguesa de modo geral, e em particular, a língua falada no Brasil, vive um impasse. De um lado, existe uma distância muito grande entre a norma culta, tal como é prescrita pelos gramáticos, e a norma coloquial, isto é, a que todos os falantes escolarizados usam em situação informal. Embora essas duas normas sejam diferentes em todas as línguas, as demais línguas românicas já simplificaram a sua norma culta há algum tempo. Hoje, a gramática do português é, sem dúvida, a mais complexa dentre as das línguas românicas e mesmo das línguas da Europa ocidental, só sendo comparável em complexidade talvez às línguas eslavas, com evidente prejuízo à difusão da língua e da cultura lusófonas no mundo. Já passou da hora de as Academias de Letras portuguesa e brasileira reverem a gramática normativa da língua e lançarem definitivamente no âmbito do "português clássico", isto é, não contemporâneo, coisas como mesóclise, verbos defectivos que todo mundo conjuga e uma série de outras incoerências. Por outro lado, devemos lembrar que essa complexíssima língua é falada em sua maioria por povos do Terceiro Mundo, onde a escolarização é muito precária. Assim, temos a conjunção de conservadorismo exacerbado dos gramáticos com ignorância praticamente generalizada dos falantes, caldo de cultura ideal para o surgimento da incomunicação, do preconceito e, sobretudo, da dificuldade de alfabetização e escolarização lingüística. Destaco ainda a atual polêmica sobre a coibição ou não de estrangeirismos desnecessários, que tem levado a posições extremadas e de pouco bom senso.

8 - E a Lingüística no Mundo? Quais os rumos que a ciência lingüística deve tomar nos próximos anos?

Cada vez mais, a lingüística vem contribuindo para outros campos de pesquisa, como as já citadas neurociências, as ciências cognitivas, a inteligência artificial, a arqueologia, a paleoantropologia, a etnologia, etc., e, ao mesmo tempo, vem recebendo significativas contribuições dessas áreas. A compreensão dos mecanismos mentais de processamento da linguagem, bem como o estudo da evolução histórica das línguas, recuando até a mais remota pré-história e contribuindo para o estabelecimento conjunto das árvores genealógicas lingüística e genética da espécie humana também têm vivido um franco florescimento nos últimos anos. O grande problema é que todas essas pesquisas dependem da preservação da diversidade lingüística, que, a exemplo da biodiversidade, está se perdendo a passos largos. Previsões bastante pessimistas apontam que, em cem anos, 90% das línguas do mundo terão se extinguido, quer devido à pressão da globalização econômica, que impõe a aculturação lingüística, quer pela simples extinção biológica - entenda-se extermínio - das populações que falam essas línguas. Atualmente, 96% da população mundial falam apenas 4% das línguas existentes. A lingüística terá de empreender uma verdadeira corrida contra o tempo se não quiser ver o seu objeto de estudo simplesmente desaparecer.

9 - E o Brasil neste contexto?

Embora tenhamos aqui no Brasil grandes lingüistas, como o Prof. Aryon Rodrigues, da Universidade de Brasília, que há anos se dedica ao estudo das línguas indígenas brasileiras e sua relação com as demais línguas do planeta, bem como alguns outros estudiosos que realizam pesquisas de ponta, o fato é que no Brasil a lingüística só existe como programa regular de pesquisa e pós-graduação em umas poucas universidades públicas, onde em geral está confinada em departamentos de Letras que não dispõem de verba para pesquisas e onde seu campo se mistura a estudos literários, pedagógicos, etc. Por isso, em praticamente todas as universidades em que existe essa cadeira, as pesquisas estão quase sempre voltadas a aplicações no ensino de línguas - em especial, de língua portuguesa. Ironicamente, o ensino de língua portuguesa nunca esteve tão ruim quanto agora.

10 - Você acredita que o Brasil possui uma política lingüística bem definida?

Não. Ao contrário de muitos países em que existe plurilingüismo, o Brasil difundiu o mito da língua única, falada de norte a sul, e graças aos meios de comunicação de massa, com destaque para a Rede Globo, esse mito está se transformando pouco a pouco em realidade. Acontece que as línguas indígenas, assim como as línguas faladas em ilhas lingüísticas por imigrantes europeus e asiáticos e seus descendentes, foram até agora solenemente ignoradas. Só recentemente tem havido iniciativas de alfabetização de crianças índias em suas línguas nativas, o que, aliás, me parece um contra-senso: ensinar a escrever línguas que têm sido exclusivamente orais há milênios. Quanto ao ensino do idioma paterno aos descendentes de imigrantes, só existem umas poucas iniciativas isoladas, quase sempre tomadas pela própria população e não pelo Estado. Enfim, a política lingüística brasileira tem se resumido à imposição a uma população escolar, em sua maioria carente, de uma norma culta anacrônica e à coibição de usos não legitimados pela elite culta. Vez por outra, vemos alguns projetos de lei demagógicos e estapafúrdios determinando o ensino de tupi na escola básica ou confundindo defesa da língua com xenofobia pura e simples. O fato é que, enquanto não houver pesquisa lingüística institucionalizada e sistemática no Brasil, e enquanto os membros da Academia Brasileira de Letras forem eleitos mais por critérios políticos do que de mérito e competência, não teremos política lingüística alguma no Brasil que mereça esse nome.

11 - Para finalizar, qual a sua opinião a respeito do Sistema Educacional no Brasil?

Bem, como eu já sinalizei em respostas anteriores, acho o nosso sistema educacional simplesmente caótico. Temos Secretários e Ministros da Educação nomeados por razões políticas e não técnicas, pessoas que pouco ou nada entendem de educação. Outras vezes, temos secretários e ministros que são profundos conhecedores da teoria, mas não conhecem nada da prática educativa e vêm impor modelos teóricos e metodologias de eficácia duvidosa ou que não se aplicam à nossa realidade, como a famigerada progressão automática. Temos professores de ensino básico mal formados e miseravelmente remunerados, de quem não se pode exigir nada, muitos atravessando florestas ou indo de barco dar aula, temos uma burocracia que literalmente suga os recursos financeiros destinados à educação, de modo que quase nada chega à sala de aula, investimos proporcionalmente muito mais no ensino superior do que no básico e depois reclamamos que os nossos estudantes universitários são semi-analfabetos e ainda queremos incluir os negros e índios no ensino superior por decreto, sem que eles tenham sido preparados para freqüentar uma universidade. Enfim, temos priorizado questões de curto prazo, como a política econômica ou a realização de obras públicas custosas e, por vezes, superfaturadas, em vez de investir na educação. Deveríamos aprender com o exemplo dos países desenvolvidos e, principalmente, de países que saíram da pobreza rumo ao desenvolvimento porque investiram maciçamente na educação de seu povo.

12 - Nós da Revista Letra Magna e todos os nossos visitantes-leitores parabenizamos seu trabalho e lhe desejamos muito sucesso.

Muito obrigado pela oportunidade, parabéns e muito sucesso a essa revista que, em pouco tempo, já tem prestado um valioso serviço à comunidade de estudiosos da linguagem.