Carla Viana Coscarelli


Doutora em Lingüística pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde leciona, desenvolve pesquisas na área de leitura, tecnologia e cognição, e onde orienta dissertações, teses, entre outros trabalhos acadêmicas. Recentemente fez pós-doutorado no Departamento de Ciências Cognitivas da University of California San Diego (UCSD), trabalhando com uma pesquisa sobre a leitura de hipertextos. É autora de livros como Novas Tecnologias, Novos Textos, Novas Formas de Pensar e Livro de Receitas do Professor de Português.


 

1 - O que caracteriza o hipertexto? Quais são as suas especificidades?

 

A característica principal do hipertexto digital é ter links, ou seja, é ser um texto que contém caminhos que levam, com um clicar do mouse, a outros textos. Assim, a idéia de todo ou de completude fica a critério do leitor. O texto acaba onde ele se sentir satisfeito com a leitura. Quando a gente vai navegar na internet e vê palavras marcadas de azul, ícones ou botões em que podemos clicar para encontrar mais informações, estamos num hipertexto. Sites são normalmente hipertextos, mas um hipertexto pode ir muito além de um site. A noção de texto agora vai além da idéia tradicional do material que foi produzido por um autor num número de páginas que ele define onde começa e onde acaba. Isso não implica, no entanto, que o leitor faça esse percurso todo e na ordem apresentada no material impresso. O internauta, assim como o leitor de jornal, vai de um lado para outro, em busca dos seus interesses. Não sei se há tantas novidades assim no universo digital. O que acontece é que tínhamos uma visão muito equivocada do processo de leitura, acreditando que todo e qualquer leitor em toda e qualquer situação sempre leu os textos do início ao fim, sem pular partes, sem ir de um material para o outro. Não é assim que lemos todos os textos. O leitor não é passivo assim e o hipertexto só reforça e facilita essa dinâmica de leitura, que sempre existiu.

 

2- O que caracteriza os gêneros virtuais (ou digitais)?

 

Se já é difícil caracterizar gêneros não virtuais que circulam em nossa sociedade há anos, imagine então como é complicado caracterizar gêneros virtuais que são novidades. Acredito na noção de gêneros como sendo um conjunto de características que alguns textos costumam adquirir quando passam a ser freqüentemente usados em uma determinada situação comunicativa. Ou seja, o uso acaba por estabelecer um padrão e algumas regras para aquele texto. Isso é uma coisa construída com o tempo e é negociada entre os usuários. Mas devemos ficar atentos para o fato de que essas características podem variar muito. Gênero não é essa coisa muito certinha e bem definida que muita gente acha que é. Muito pelo contrário, as variações são grandes. E dependem de muitos fatores, entre os quais podemos citar o lugar de publicação daquele texto. Um texto pode mudar de gênero, dependendo de onde ele foi publicado. Falar de gênero é muito complicado. No universo virtual ou digital, ainda não tivemos muito tempo para as negociações entre os usuários. Elas ainda estão sendo feitas, a linguagem ainda está sendo construída e os gêneros estão sendo criados. Por mais que tenhamos em mente um modelo de e-mail, por exemplo, os e-mails que recebemos ainda variam enormemente!

 

3- O que diferencia a linguagem usada na internet das outras manifestações lingüísticas?

 

Cada situação exige uma linguagem diferente. Não falamos do mesmo jeito em uma reunião formal de trabalho e em uma conversa descontraída com os amigos em um bar, não costumamos usar os jargões da nossa área de trabalho em conversas com leigos, e assim por diante. Na internet acontece a mesma coisa. Num chat, por exemplo, a digitação tem de ser rápida e, por isso, várias abreviaturas são usadas, além do mais, a conversa é informal, o que autoriza e estimula o uso de variantes não-formais da língua. Na verdade, o uso de uma variante formal do português não é bem aceito em um chat. O chat é uma uma fala-escrita e isso faz com que elementos da fala e da escrita se misturem criando uma novas formas de uso da linguagem. Nesse ambiente, a noção de erro e acerto é muito diferente daquela das gramáticas tradicionais.

 

4- Apesar de toda a diversidade lingüística nacional (variações regionais), percebemos que os recursos usados para comunicação entre internautas parecem seguir alguns padrões, apesar da aparente "desordem" lingüística. Os internautas de todo o Brasil conseguem se compreender perfeitamente, pois utilizam os mesmos sinais gráficos, abreviaturas, emoticons, etc. Como a senhora explica esse fenômeno?

 

Isso é muito interessante. Os internautas estão criando uma linguagem diferente, como sempre aconteceu nos grupos sociais. Surfistas, jogadores de futebol, músicos, médicos, lingüistas, meninos de rua, traficantes, ou seja, todos os grupos sociais acabam usando uma linguagem que tem elementos muito particulares. E essa linguagem é dinâmica. Ela se modifica com o tempo e entre os falantes. É isso que está acontecendo também na internet. Não há uma desordem lingüística, de jeito nenhum. Há uma linguagem que está sendo criada, entre os internautas, que varia de acordo com o grupo, que tem suas regras e que (como qualquer língua em uso) vai se modificar eternamente para atender às necessidades (e aos caprichos) dos usuários. A desordem é a impressão que tem quem ainda não se acostumou com aquela determinada linguagem. Num segundo olhar mais cuidadoso, é possível ver que os internautas usam um sistema que tem suas regras e que está muito longe de ser um caos.

 

5- Com o surgimento dos "e-books", a senhora acredita que haverá a substituição gradual dos livros tradicionais de papel, até a sua completa extinção, ou "nada substitui o livro"?

 

É difícil uma pessoa que adora livros dizer que os livros vão acabar. Mas acredito que a informática veio para somar e não para substituir. O e-book, então, será mais uma opção para o leitor. Do mesmo jeito que a televisão não acabou com o rádio, e que o vídeo e o DVD não acabaram com o cinema, acredito que podem haver transformações nos livros e revistas, assim como houve no rádio e no cinema. Não acredito que o livro vá deixar de existir num futuro próximo.

 

6- A língua usada na internet é uma modalidade falada por escrito ou uma modalidade escrita com erros ortográficos? Como a senhora compreende os recursos usados nas manifestações eletrônicas?

 

Acho melhor falar em adequação do que em erro. O que podemos chamar de erros seriam os problemas de digitação, que são muito comuns em chats, e-mail, blogs e tal. Não podemos dizer que vc, blz, entre tantas outras abreviaturas usadas na internet, são erro. Temos é uma tentativa de aproximar a escrita da fala. Muitas vezes precisamos digitar na velocidade da fala, que é muito mais rápida que nossa capacidade de escrita, e essa necessidade de rapidez vai fazer com que os usuários criem e utilizem recursos que agilizem a escrita. Outras vezes usamos recursos para imitar a fala e para suprir a falta dos gestos, das expressões faciais e das entonações, daí o uso de emoticons (J, L, etc.), conjuntos pontuacionais (!!!!!!!!!!!!, ?!?!?!?!), onomatopéias (huummmm, hehehe), entre outros. Não dá para falar de erro na concepção tradicional aqui. Podemos falar, no entanto, de inadequação. Um banco, não poderia, por exemplo, fazer um site usando a linguagem de chat, caso queira ser visto como uma instituição séria e confiável. Um site de humor, por sua vez, não pode usar a mesma linguagem usada no site de um banco. A linguagem também deve variar de acordo com a faixa etária do seu público-alvo. Isso acontece em qualquer texto e em todos os meios de comunicação.

 

7- E quanto ao e-mail? Ele pode ser considerado um gênero virtual/digital? Quais as características que o definem como tal?

 

O e-mail é um gênero digital, mas conforme eu disse, é muito difícil caracterizar um gênero, porque em outro suporte ou ambiente ele pode passar a ser outro gênero. O e-mail geralmente tem uma abertura (cumprimento ou nome), um corpo (mensagem) e um fechamento (despedida), tal como acontece nas cartas. Mas, num entanto, não ter abertura e/ou fechamento. E nem por isso deixa de ser e-mail. Pode ser um convite, pode ser um bilhete, pode ser um ofício e continua a ser também um e-mail. A noção de gênero é muito complexa e precisa ser pensada, não como um conjunto fixo de traços que caracterizam um texto como pertencendo a um único rótulo, mas como características prototípicas ou comuns a alguns textos, porém não necessariamente obrigatórias. O suporte ou ambiente em que o texto aparece também é um fator muito importante na identificação do gênero de um texto.

 

8- O que é "Netiqueta"?

 

É uma tentativa de colocar ordem na casa. As netiquetas são instruções para uma boa convivência na internet. Elas ensinam ao usuário que letras maiúsculas significam que ele está gritando, que não é de bom tom na internet ficar corrigindo o português de outras pessoas, que ele deve evitar repassar “correntes”, “alertas”, “spam” e “propagandas”, entre outras coisas que mesmo quem não leu as netiquetas acaba aprendendo depois de se familiarizar com a internet.

O desrespeito a netiquetas pode deixar muitos usuários furiosos ou incomodados, portanto, é sempre bom conhecê-las.

 

9- O surgimento e utilização cada vez mais ampla do e-mail sugere o fim das cartas via correio?

 

As cartas podem não acabar, mas certamente serão em menor número. O e-mail é mais rápido, mais prático e mais barato que as cartas. Isso faz com que a maioria das pessoas opte por eles. A demanda de entrega de mercadorias compradas na internet tem aumentado muito nos últimos anos. Isso também vai gerar transformações no serviço postal.

 

10- Existe um padrão para a redação/organização do texto em e-mails?

 

Normalmente os e-mails começam com o nome do destinatário, ao qual se segue o corpo da mensagem e o nome do emissor. Mas isso não significa que todos os e-mails tenham de seguir rigorosamente essa organização. Freqüentemente os nomes do destinatário e do emissor são omitidos, uma vez que essas informações aparecem no cabeçalho dos programas de gerenciamento de mensagens. Quanto à linguagem, o grau de formalidade do texto vai variar dependendo da situação de comunicação e do tipo de relacionamento existente entre os interlocutores. Numa situação de trabalho, os e-mails costumam ser um pouco mais formais que numa troca de mensagens entre amigos, e podem até haver e-mails muito formais, como numa troca de mensagens institucionais. No entanto, em sua grande maioria, os textos de e-mails não são formais.

 

11- Quais são as perspectivas para o futuro quanto ao uso da internet como "canal" para criação de novos gêneros ou formas de comunicação?

 

Ótimas. A internet é um universo muito produtivo e muito livre. Os blogs são uma prova disso. A internet, pela sua agilidade e vasto alcance, estimula a comunicação. As pessoas se sentem à vontade para se apresentar, para manifestar suas crenças e interesses, para expor sua vida pessoal ou profissional, bem como para exibir suas produções e criações. A internet já se configurou como fonte de informação e, por isso, cada vez mais informação tem sido disponibilizada na rede por pesquisadores ou centros de pesquisa, por instituições, empresas ou por iniciativas pessoais. E tudo isso é feito de formas e estilos diferentes, e não raro, muito criativamente.

A internet também tem muito a contribuir para a educação. Cursos a distância, quando bem planejados e quando bem equipados, ou seja, quando contam com os recursos tecnológicos necessários e tanto professores quanto alunos são capazes de usar esses recursos que a informática disponibiliza, têm se mostrado muito eficientes. Acredito muito nesta modalidade de educação como uma forma de dar acesso à informação a comunidades carentes ou fora dos grandes centros urbanos.

Algumas pesquisas recentes mostram também que hipertextos, devidamente planejados e organizados, têm muito a contribuir para ambientes de ensino-aprendizagem, uma vez que estimulam a leitura auxiliando o trabalho do leitor.

A internet e a informática de modo geral têm um grande potencial que, ao ser explorado, vai gerar novas situações de comunicação, que por sua vez vão resultar em novos gêneros, ou na recriação dos que já temos.

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