http://www.letramagna.com/logo.png


Rosângela Hammes Rodrigues
Universidade Federal de Santa Catarina

Por Rodrigo Acosta Pereira

LETRAMAGNA – Profa, como a senhora avalia o “estado de arte” da Linguística Aplicada (LA) contemporânea no Brasil?

Analisando as pesquisas desenvolvidas atualmente, pode-se dizer que no Brasil a Linguística Aplicada (LA) encontra-se como área de conhecimento plenamente consolidada, de natureza transdisciplinar, ou indisciplinar, no sentido atribuído ao termo por Luiz Paulo Moita Lopes.  Isso se reflete institucionalmente, quando observamos a existência de vários programas de pós-graduação em Linguística Aplicada ou a Linguística Aplicada como área de concentração. Cito apenas dois exemplos, dentre vários: o Programa de Linguística Aplicada (LAEL) da PUC/SP e a área de concentração em Linguística Aplicada do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSC. Tanto a criação do LAEL quanto o surgimento da área de concentração em LA na UFSC datam da década de 1970, o que nos indica que quando ocorreu a consolidação da pós-graduação no país a LA já era uma área de pesquisa. Outro dado institucional é a associação de Linguística Aplicada do Brasil (ALAB) e as revistas científicas da área.

Claro que, nesse percurso temporal, a LA se reconfigurou de área dependente da Linguística para, como dito, uma área de natureza transdisciplinar, em diálogo com as áreas das ciências humanas e sociais. Isso se deve às mudanças nos modos de fazer pesquisa e nos “objetos” de pesquisa. Se na década de 1970 ainda havia a tendência de se achar que a Linguística Aplicada se constituía como espaço para a aplicação das teorias da Linguística na resolução dos problemas de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras e língua materna; nas décadas seguintes, a área fez sua auto-crítica para entender que novos temas de investigação, nesse contexto, a pesquisa aplicada em ensino e aprendizagem de línguas, exigem novos modos de se fazer pesquisa e teorizar; que não há como transpor teorias para dar conta da complexidade dos estudos em ensino e aprendizagem de línguas (ou qualquer outra área de pesquisa aplicada). Como lembra Luiz Paulo da Moita Lopes, embora uma teoria linguística possa fornecer uma descrição mais apurada de um aspecto linguístico, ela pode ser completamente ineficiente para a compreensão do ensino e aprendizagem de línguas (ou outro objeto de pesquisa do campo aplicado) e para busca de alternativas para essa questão, uma vez que foi elaborada abstraída das práticas de linguagem e não tendo como foco a pesquisa aplicada, a qual se depara continuamente com a complexidade das situações de uso da linguagem. Além de sua reconfiguração teórica e metodológica, ou seja, dos seus modos de fazer pesquisa, hoje a LA abrange outros objetos de estudo, como o estudo das práticas de linguagem nas relações de trabalho, nas clínicas (fonoaudiológicas, psicopedagógicas, médicas), nas políticas públicas (com no caso das políticas linguísticas, das políticas educacionais etc.); os estudos sobre identidade, alteridade, minorias linguísticas etc.

Resumindo, a maioria dos pesquisadores da LA hoje, no Brasil, pesquisa problematizações da vida social nas quais a linguagem desempenha um papel central, com vistas a construir inteligibilidades (Moita Lopes, 2006) e soluções/alternativas situadas para esses contextos de uso da linguagem (vistas como práticas de linguagem). Como lembra Rojo (In: Moita Lopes, 2006) a respeito dos objetos de pesquisa, não se trata de qualquer problema definido teoricamente, mas de problemas com relevância social, os quais necessitam de respostas teóricas que tragam ganhos sociais a seus participantes, no sentido de uma melhor qualidade de vida. Por isso, como área de pesquisa cujo olhar de investigação se volta para a práxis social, a LA lida com um modo dialético de fazer pesquisa, em que há o diálogo com as práticas sociais dos sujeitos da pesquisa, em que se consideram as concepções, os interesses e as necessidades desses sujeitos e em que teoria e práxis dialogam, numa via de mão dupla.

 

LETRAMAGNA – Profa, como a senhora vê as pesquisas em LA sobre ensino e aprendizagem de língua materna voltadas ao uso das tecnologias de informação e comunicação?

Quando se trata das tecnologias de informação e comunicação (TICs) é preciso manter no horizonte apreciativo duas considerações: a primeira, as novas tecnologias por si só não geram novos gêneros do discurso; a segunda, as TICs não democratizam as relações sociais, nem, por si só, possibilitam a inserção dos sujeitos nas interações das esferas sociais formalizadas. Isso posto, podemos discutir que as novas tecnologias mudaram nossas relações com o outro, com o conhecimento, pois criaram as condições para a emergência de novas situações de interação (que são o lócus da constituição de novos gêneros) e, ainda, hibridizaram e reconfiguraram práticas tradicionais de interação, bem como fizeram convergir diferentes modalidades semióticas em um mesmo texto. Essas questões, sem dúvida, alteram a prática escolar. Por exemplo, com a disponibilidade da informação, já não se pode mais pensar a escola como um lugar de “transmissão” de conhecimento, uma vez que os conhecimentos estão disponíveis nas redes.

No que se refere às pesquisas em LA sobre ensino e aprendizagem de língua materna voltadas para o uso das tecnologias de informação e comunicação, acredito que seu papel está no estudo das práticas de linguagem mediadas pelas TICs, tanto para a compreensão de como essas práticas são mediadas por tais tecnologias, quanto para a investigação de quem são os sujeitos que têm acesso ou não têm às interações por elas mediadas.  Ainda, pensando nas hibridizações das práticas de linguagem e nas convergências das diferentes modalidades semióticas, como tratar em contexto escolar as práticas de linguagem mediadas por textos multissemióticos? Ou seja, uma aula de ensino e aprendizagem de leitura não pode mais tratar apenas da linguagem verbal ou, nos textos multimodais, não se pode considerar apenas a questão verbal. Por outro lado, essas reflexões demandam novos modos de se pensar a formação inicial do professor de Língua Portuguesa, o que reverbera (ou deveria) em novas configurações para os  cursos de licenciatura.

LETRAMAGNA – Quais foram os grandes avanços em LA, no Brasil, nos últimos anos?

A resposta a essa pergunta está contemplada nas respostas às questões 1 e 2 desta entrevista. Resumidamente, creio que os maiores avanços da LA no Brasil estão na consolidação da área como campo autônomo de pesquisa, na autocrítica que constantemente a área faz de sua pesquisa ou ainda na emergência da LA crítica, na abertura de novos objetos de pesquisa (como dito antes, o estudo das práticas de linguagem em contextos não escolares, com vistas à criação de inteligibilidades e alternativas para problemas sociais em que a linguagem é parte central), na articulação de propostas pedagógicas de ensino e aprendizagem de línguas críticas e comprometidas com os sujeitos historicamente excluídos do sistema formal de ensino. Ainda, gostaria de ressaltar, pelas razões expostas, a relevância social de sua pesquisa, na medida em que busca uma melhor qualidade de vida para os sujeitos.

 

LETRAMAGNA – Profa, a senhora poderia sugerir algumas referências para os leitores conhecerem mais sobre as questões debatidas na entrevista?

Temos inúmeras publicações relevantes em periódicos nacionais e internacionais, bem como em livros. Dentre as revistas destaco:

Revista Brasileira de Linguística Aplicada (http://www.periodicos.letras.ufmg.br/rbla/)

Trabalhos em Linguística Aplicada (http://www.scielo.br/revistas/tla/iaboutj.htm)

Dentre os livros, destaco:

 

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

KLEIMAN, Angela K. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1995.

 

MOITA LOPES, Luiz Paulo da (Org.). Por uma linguística aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006.

 

PONZIO, Augusto. A revolução bakhtiniana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. São Paulo: Contexto, 2008.

 

SILVEIRA, Ana Paula K., ROHLING, Nívea, RODRIGUES, Rosângela Hammes. A análise dialógica dos gêneros do discurso e os estudos do letramento: glossário para leitores iniciantes. Florianópolis: DIOESC, 2012.

 

RAJAGOPALAN, Kanavillil. Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e a questão ética.São Paulo: Parábola, 2003.

 

ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2009.