JOSÉ GASTON HILGERT

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Por Artarxerxes Modesto

 

LETRAMAGNA - Como o senhor avalia os avanços da Linguística brasileira nos últimos anos? Qual foi a área de maior destaque ou importância?

HILGERT - O que se observa é que a Linguística brasileira, em termos gerais, é vigorosa e dinâmica. Ao menos dois fatos levam a essa constatação: em primeiro lugar, a abrangência, a quantidade e a qualidade de trabalhos resultantes de pesquisas apresentados em nossos grandes congressos; em segundo lugar, o crescimento - diria quase vertiginoso - dos programas de pós-graduação na área. São dois dados incontestes de que há um grande interesse pela Linguística, de que há muitas pessoas envolvidas em projetos em diferentes campos da grande área, cujos objetos de investigação situam-se tanto no âmbito das teorias da Linguística quanto no das aplicações dela. Em síntese, a Linguística brasileira efetivamente avança, se desenvolve em seus diferentes campos, fato que, com certeza, deve ser avaliado positivamente. Não cabe aqui uma avaliação mais específica. Esta teria de considerar os diferentes campos em separado e adotar critérios bem definidos e justificados de avaliação, propósito que a primeira pergunta parece não revelar.
É difícil nomear assim genericamente, isto é, sem partir de uma determinada perspectiva, o campo da Linguística de maior destaque ou importância. Do ponto de vista da pertinência científica, toda pesquisa linguística, não importa sua especialidade, se conduzida com propriedade e método e se contribuir ao desenvolvimento teórico ou aplicado da ciência da linguagem, é importante. Se considerados os critérios da evidência e da incidência de trabalhos em congressos e em publicações, cabe, a meu ver, destaque aos estudos que focalizam o discurso (especialmente na perspectiva da AD, da Semiótica Discursiva, do ideário de Bakhtin e das abordagens digamos mais ecléticas como as inspiradas em Maingueneau e Charaudeau); a gramática (envolvendo a descrição e a análise gramatical em diferentes contextos de uso da língua, a abordagem formal, os processos de gramaticalização, o desenvolvimento das ideias sobre gramática, o ensino da gramática na perspectiva de uma linguística aplicada); e a Linguística Interacional (que, em geral, descreve e analisa a língua enquanto determinada por situações de conversação em diferentes contextos das práticas sociais dos falantes).

LETRAMAGNA- Quais as contribuições que os estudos da Interação e da Análise da Conversação trouxeram para o entendimento da língua, em especial da Língua Portuguesa do Brasil?

HILGERT -Para responder a essa pergunta cabe, inicialmente, um esclarecimento. Originalmente, a Análise da Conversação (Conversation Analysis) surgiu no âmbito da Sociologia, mais especificamente, no da Etnometodologia (um ramo dissidente da tradicional Sociologia americana). Nesse contexto, a conversação se tornou objeto de estudo por ser um ato de interação entre pessoas e, por isso, um ato de genuíno caráter social. Interessava aos conversacionalistas explicitar os métodos responsáveis pela ordem da interação na conversa e não descrever os recursos linguísticos por meio dos quais a conversa se instituía e realizava. Na medida, porém, em que a Conversation Analysis foi acolhida pelos centros de investigação linguística, o foco de análise voltou-se para a realização linguística das propriedades interacionais das conversas, o que determinou o surgimento de uma análise da conversação linguística, amplamente iluminada pela de natureza da etnometodológica, particularmente no que concerne ao objeto de investigação e aos métodos de trabalho. Na medida em que as interações institucionais também foram se tornando objeto da análise da conversação linguística, foi se difundindo a denominação de Linguística Interacional para os estudos das manifestações linguísticas em interações face a face.
No que respeita à contribuição que os estudos conversacionais trouxeram para o entendimento das línguas – dentre elas, obviamente, também o português – pode-se dizer que eles estabeleceram novos focos de interesse dos linguistas no estudo da língua. Em muitos casos, os estudos conversacionais levaram a uma reorientação de interesses em âmbitos tradicionais da Linguística e criaram outros. Por exemplo, na Linguística Textual e nos estudos gramaticais, cresceu muito a preferência pela análise e descrição de registros de “textos falados”. Com isso, categorias e procedimentos antes intocáveis foram, em maior ou menor grau, redefinidos por força de sua determinação interacional. A análise das interações faladas tornou-se campo propício para o estudo dos processos de gramaticalização e de deslizamento de categorias gramaticais.


LETRAMAGNA - Com relação à conversação na Internet, o senhor considera que este novo gênero trouxe alguma mudança de comportamento linguístico para os falantes do Português?

HILGERT -Não creio que esse gênero tenha trazido grandes mudanças no comportamento linguístico dos falantes, nem nas interações face a face, nem em textos escritos que estão fora das relações pela internet. O “internetês” é marcado por traços que, em sua absoluta maioria, só fazem sentido, no meio em que ele é usado. São traços por uma ou outra razão determinados pelo meio. Por isso, em geral, não cabem em outros contextos de interação, pois causariam estranheza e não fariam sentido. E isso ninguém precisa dizer para o falante e para quem escreve. Em princípio, o usuário da língua percebe-o intuitivamente em situação concreta de comunicação. Se o aluno não sabe escrever ou se escreve muito mal, não é porque seu texto venha eivado de marcas da linguagem da internet. As preocupações com o “internetês”, particularmente em relação ao domínio da língua escrita, são de outra ordem, cuja discussão teria de ser feita em outro momento.

LETRAMAGNA - Na sua concepção, qual é a linha divisória entre a Pragmática, a Análise da Conversação e a Sociolinguística?

HILGERT -É evidente que existem traços que conferem identidade a esses três campos dos estudos linguísticos, mas eles estão ao mesmo tempo muito próximos e são bem aparentados, particularmente no que concerne a seus objetos de investigação. É essa proximidade que me interessa aqui enfatizar, especialmente a existente entre a Análise da Conversação e a Pragmática. Em primeiro lugar é preciso considerar que a Conversation Analysis foi acolhida no âmbito da Linguística num momento propício, quando a Pragmática e a Sociolinguística já estavam em franco desenvolvimento. A Pragmática foi, de início, fortemente marcada pela Teoria dos Atos da fala, que, em princípio, distinguia diferentes tipos de atos identificados a partir da ação de um falante sobre um ouvinte. Ou seja, atribuía-se ao ato da fala natureza unidirecional, no sentido de ele ser produzido unicamente pelo falante. A atuação do ouvinte nessa produção era desconsiderada e, por isso, também a interação. A ausência dessa perspectiva na Teoria dos Atos da Fala desencadeou, evidentemente, trabalhos críticos que preconizavam a essência da interação na compreensão dos atos de fala, a ponto de autores definirem a Pragmática como uma “linguística do diálogo”. Foi justamente nesse momento das discussões em Pragmática que a Conversation Analysis se ofereceu aos linguistas, que viram nela um forte aliado para o desenvolvimento da língua em uso em reais situações de interação. Nesse sentido, pode-se dizer que a análise da conversação linguística nasceu e prosperou no âmbito da Pragmática, num momento em que esta se voltava intensamente ao caráter interacional dos enunciados linguísticos.
No que respeita às relações entre Análise da Conversação e Sociolinguística, ambas trabalham com dados concretos da língua falada. Distinguem-se, no entanto, nos métodos de formação de corpora e de descrição e análise de dados. Essa distinção metodológica se deve, evidentemente, ao fato de serem diferentes os seus objetivos.


LETRAMAGNA - Quais são as principais linhas de pesquisa ligadas à Interação Verbal hoje? Quais são as atuais “preocupações” dos estudos linguísticos para o Português do Brasil?

HILGERT -Na Linguística Interacional, o pesquisador pode tanto partir de um dado linguístico e investigar sua realização em diferentes procedimentos interacionais, quanto estabelecer uma ação recorrente numa ou em mais interações para descrever e analisar sua configuração linguística. Segundo essas duas perspectivas, podem-se definir os mais variados interesses e linhas de pesquisa. Entre as várias que se desenvolvem nos programas de pós-graduação, mencionem-se, como exemplos, linhas como: gramática e interação; a compreensão e os problemas de compreensão nas interações; a estruturação sintática nas interações; a emergência do léxico no aqui e agora das interações face a face; cortesia e descortesia em interações face a face. Não se devem esquecer, também, as linhas de pesquisa que relacionam fala e escrita. Em geral, o interesse desses estudos é analisar e discutir os efeitos de oralidade que o uso de certos recursos de língua produz em textos escritos.
Em relação à segunda pergunta, entendendo por “preocupações” inquietações com algo, diria que estudos linguísticos, em ao menos algumas especialidades, têm preocupação com a qualificação do ensino da língua, com o trabalho com o texto em sala de aula, com a aquisição de competência de leitura, com o processo de alfabetização, com a intolerância e os preconceitos linguísticos, para citar alguns exemplos. Se, no entanto, “preocupações” quiser dizer algo como pensamento ou interesse dominante, nos estudos linguísticos do Português do Brasil, estão em evidência, atualmente, para relacionar alguns exemplos, estudos voltados aos processos de gramaticalização, à história das ideias linguísticas, à história das ideias gramaticais, à história do português Brasileiro, às variações sociolinguísticas, à descrição e análise discursivas de diferentes manifestações sócio-político-culturais brasileiras. E continuam, evidentemente, dinâmicas, as pesquisas no âmbito da Linguística Interacional, seja na perspectiva da análise de conversações, seja no âmbito das interações institucionais.


LETRAMAGNA - O senhor poderia sugerir alguns livros na área de Interação Verbal, para que nossos leitores possam se iniciar ou mesmo se aprofundar no assunto?

HILGERT -Atenho-me aqui a algumas obras coletivas, todas elas divulgando, na maior parte de seus textos, estudos em Linguística Interacional:
1. BENTES, Anna Christina e LEITE, Marli Quadros (orgs.). Linguística do texto e análise da conversação: panorama das pesquisas no Brasil. São Paulo: Cortez, 2010.
2. JUBRAN, Clélia Cândida Abreu Spinardi e KOCH, Ingedore Gruenfeld Villaça (orgs.). Gramática do português culto falado no Brasil. Campinas: Unicamp, 2006.
3. PRETI, Dino(org.). Coleção Projetos paralelos – NURC/SP – Núcleo USP:
- Vol. 1. Análise de textos orais. São Paulo: FFLCH / USP, 1993.
- Vol. 2. O discurso oral culto. São Paulo: Humanitas-FFLCH/USP, 1997.
- Vol.3. Estudos de língua falada: variações e confrontos. São Paulo: Humanitas-FFLCH/USP, 1998.
- Vol. 4. Fala e escrita em questão. São Paulo: Humanitas, 2000.
- Vol. 5. Interação na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas-FFLCH/USP, 2002.
- Vol. 6. O léxico na língua oral e na escrita. São Paulo: Humanitas-FFLCH/USP, 2003.
- Vol. 7. Diálogos na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas, 2005.
- Vol. 8. Oralidade em direrentes discursos. São Paulo: Humanitas, 2006.
- Vol. 9. Cortesia verbal. São Paulo: Humanitas, 2008.
- Vol. 10. Oralidade em textos escritos. São Paulo: Humanitas, 2009.
- Vol. 11. Variações na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas, 2011.

Resta ainda uma vasta produção bibliográfica sobre Linguística Interacional divulgada em obras e periódicos diversos, com destaque ao conjunto de volumes que publica os resultados das pesquisas do Projeto da Gramática do Português Falado no Brasil.

 

 

 

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